ITAJAÍ
Padre Eder se despede da Matriz e declara amor por Itajaí
Sacerdote atuou quase seis anos na Matriz
Camila Diel [editores@diarinho.com.br]
O padre Eder Cláudio Celva deixou a Paróquia do Santíssimo Sacramento, no centro de Itajaí, depois de quase seis anos à frente da comunidade. A mudança definida pela Arquidiocese de Florianópolis encerrou um período intenso, de muito silêncio, estudo, trabalho e vínculo com a cidade.
Sem grandes celebrações, o padre Eder escolheu se despedir escrevendo. Em carta dirigida à comunidade, abriu o coração sobre a saída, falou do apego a Itajaí e relembrou a caminhada vivida dentro e fora da igreja.
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No texto, ele deixa claro que Itajaí não foi apenas o lugar onde exerceu o sacerdócio. Foi onde criou raízes. O padre lembra que seus antepassados chegaram à cidade no século 19 e diz que foi ali onde permaneceu por mais tempo e com mais intensidade ao longo da vida pastoral. “O lugar que dizemos que é o nosso não é unicamente onde nascemos, mas onde estão os que amamos”, escreveu.
A despedida, segundo ele, não foi simples. O padre reconhece fragilidades, fala da dor da partida e diz que não teria forças para uma grande celebração de despedida. A emoção, explica na carta, seria maior do que conseguiria sustentar. Ao final, agradece à comunidade e pede acolhimento ao próximo pároco.
Um legado que fica
Um dos principais legados do padre Eder está no campo da pesquisa e da preservação da memória. Para o professor e historiador Edison d’Ávila, assumir a Paróquia do Santíssimo Sacramento sempre foi uma missão de grande responsabilidade, já que a igreja está diretamente ligada à origem histórica de Itajaí.
O professor lembra que foi em torno do antigo Curato do Santíssimo Sacramento, criado em 1824, que começou a se formar o núcleo urbano que deu origem à cidade. Nesse contexto, avalia que o trabalho do padre ajudou a recolocar essa história em evidência e a fazer com que a comunidade passasse a enxergar a paróquia também como parte da memória coletiva de Itajaí.
Um dos principais resultados desse esforço foi a coleção de livros do Bicentenário da Paróquia do Santíssimo Sacramento, lançada em 2024. Idealizada e escrita em parte pelo padre, a coleção reuniu pesquisas sobre a trajetória religiosa e social do município. Entre as obras, Edison destaca o livro dedicado à arte sacra da Igreja Matriz, que considera um registro importante do patrimônio cultural da cidade.
Além da produção editorial, o padre Eder também se envolveu diretamente na organização dos eventos do bicentenário, ampliando o diálogo para além da comunidade católica e reforçando o valor histórico da paróquia para Itajaí como um todo. Para o historiador, esse conjunto de ações garante que o nome do sacerdote fique registrado não apenas na história da fé, mas também na história da cidade.
Um jeito próprio de conduzir a paróquia
No dia a dia, o padre Eder tinha um estilo mais reservado. Segundo Edison d’Ávila, ele era “principalmente o homem do silêncio e da oração”. No começo, de acordo com o professor, esse jeito causou estranhamento, mas fazia parte da natureza do sacerdote.
Essa leitura também aparece no depoimento de Roberta Terezinha Uvo Bodnar, membro da Comissão do Bicentenário da Paróquia. Ela conta que foi durante uma missa, em fevereiro de 2020, que recebeu do padre o convite para atuar como catequista. Dali nasceu uma caminhada de proximidade e confiança.
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Roberta lembra que as homilias do padre, em alguns momentos, eram firmes e exigentes. Em outros, falavam de coisas simples do dia a dia, mas sempre com profundidade. Segundo ela, o padre foi importante em momentos difíceis, inclusive no luto, e deixou palavras que muitos fiéis carregam até hoje.
Olhar atento para o patrimônio
Outro traço marcante da atuação do padre Eder foi o cuidado com o patrimônio histórico. Segundo d’Ávila, o sacerdote se posicionou contra a construção de um prédio alto ao lado da igrejinha da Imaculada Conceição, na praça Vidal Ramos, por entender que a obra causaria danos a um dos espaços mais antigos e simbólicos da cidade.
O mesmo cuidado se repetiu em relação à Matriz do Santíssimo Sacramento, também tombada como patrimônio histórico. De acordo com o professor, o padre cobrou do poder público a elaboração de um projeto de restauro, compromisso que ainda não foi colocado em prática.
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Um novo tempo
Com a saída de Itajaí, o padre Eder segue agora para o Eremitério Arquidiocesano, em Guabiruba, sua cidade natal. Na carta, ele explica que inicia uma etapa mais silenciosa da vida religiosa, voltada à oração, ao estudo e ao recolhimento.
Para quem não acompanhou as mudanças, a Paróquia do Santíssimo Sacramento passa a ser comandada pelo padre Márcio Alexandre Vignoli, que assume oficialmente no dia 8 de janeiro, após deixar a paróquia do Divino Espírito Santo, em Camboriú.
Na despedida, o padre Eder escreve que segue ligado a Itajaí pela fé, pela memória e pelas pessoas. Mesmo distante fisicamente, diz que leva consigo cada rosto, cada gesto e cada momento vivido na paróquia.
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Leia na íntegra a carta do Padre Eder:
Arquivo para download:
668055_CARTA-DE-DESPEDIDA-PADRE-EDER.pdf
Camila Diel
Camila Diel; jornalista no DIARINHO; formada pela Univali, com foco em jornalismo digital e produção de reportagens multimídia.
