Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 09/01/2026 07:41
Há situações em que nada é dito, mas tudo acontece.
Esse poema nasce desse tipo de lugar — onde o corpo está presente, o sistema funciona, e o pensamento corre por baixo, tentando acompanhar.
A cena começa em pressa. Porta adentro. Cegueira momentânea.
Não há tempo para refletir com calma. Há filas, escolhas rápidas, uma decisão que parece pequena, mas já carrega peso.
O espaço é impessoal.
Placas existem, mas os olhos evitam.
A câmera está ali, silenciosa, esperando.
O relógio não ajuda — apenas pressiona.
O poema percorre esse ambiente como quem observa de dentro: a pele fria, as mãos úmidas, a atuação involuntária que todos conhecem quando entram em lugares que exigem comportamento, postura, conformidade.
Nada explode.
Nada é explicitamente violento.
Mas tudo é desconfortável.
As paredes sabem.
O sistema segue.
A fila anda.
Existe consentimento, mas ele não é verbalizado.
É tácito.
Nasce da pressa, da normalização, da sensação de que questionar atrasaria tudo.
O corpo segue firme, mas a mente entra em conflito — reconhece algo errado, ainda que não saiba nomear.
No fim, nada muda.
E talvez isso seja o ponto mais inquietante.
Abaixo, o poema como ele se apresentou:
⸻
Consentimento Tácito
Por Alfa Bile
📍 Itajaí, 8 de dezembro de 2025
Pressa.
Porta adentro.
Cego.
Duas filas.
A dúvida escolhe
a segunda.
Olhares cerrados.
Juízo
vestido de curiosidade.
Pouca idade.
Juventude deslocada.
Escolha feita.
Os olhos evitam
o óbvio.
A placa.
A câmera aguarda.
A pele fria.
Mãos úmidas.
Atuação.
O relógio pesa.
Denuncia
sem voz.
A câmera falha.
Olhares se cruzam.
Ânimos instáveis.
As paredes sabem.
Cúmplices.
Um número na mão.
Uma fila avança.
Na outra,
algo fica.
O rosto se esconde.
A câmera trabalha.
Uma voz chama.
Distraída.
Absolve.
A luz branca expõe.
O teclado insiste.
O corpo,
firme.
A cabeça vira
como quem calcula
o dano.
Alguém atrás murmura.
A mente reconhece.
Conflita.
Nada muda.
O ar rareia.
Bocas contidas.
O sistema segue.
⸻
Esse poema não oferece saída.
Ele apenas observa — e registra.
Porque, às vezes, a poesia não vem para resolver.
Vem para mostrar como seguimos, mesmo quando algo em nós hesita.
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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Publicado 09/01/2026 19:10