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Oleg precisava ser líder


Oleg, quando jovem, cresceu com alucinações, entorpecido. Num espaço de lucidez no interior de um surto, relembrou de sua infância. Foi criado como ferro forjado em fogo e martelo numa casa cujo forno familiar ardia com lenha úmida: muita fumaça se fazia no círculo familiar. Quando em desatino, para se proteger, Oleg criava um universo pessoal no qual era juiz e promotor e definia as provas por lógica inventada, manipulações encaixadas. Seu mundo girava como uma centrífuga a criar feitiçarias. Amadureceu pelo gosto das lágrimas.

As homilias de infância, aqueles encontros familiares, eram dominados de solavancos sociais, infortúnios morais, sacrilégios éticos e juras de fraternidade. Havia risadas e abraços, disfarces falsários. A violência física estava à mercê do teor alcoólico ou dos desfortúnios descobertos no trabalho ou nas ruas. Sua bagagem e tudo o que trazia na mala determinara sua formação como gente: por dentro, como espírito, por fora, como carne, reunia doçura e agressividade. Doçura para temperar o sangue, e agressividade para ressarcir a violência constitutiva de sua alma. Temia por seu futuro, por seus surtos. Sabia de seus desajustes de convivência. Amadureceu pelo gosto das lágrimas.

Oleg vencera as eleições e festejava com sorriso largo; tinha todas as sensações de um vencedor. Voltou a comemorar [ato de trazer à memória] sua trajetória como vida a vencer muitos obstáculos. Agora teria o reconhecimento que considerava devido. A partir dali todos se interessariam por seu dia, suas decisões, inquietudes, relacionamentos. Até mesmo tudo o que não fizesse seria palco para comentários. Bocas e microfones, redes sociais e esquinas sinfônicas, afinadas ou dissonantes, estariam ali a postos para apontar o certo e o errado, o bem e o mal, as virtudes e as malversações. Os juízes e suas armas prontos aos julgamentos.

Olhou no interior da Casa do Poder, um ambiente formalizado cuja vida transitava em decisões políticas, papéis e assinaturas; reuniões de trabalho, encontros com representantes de si mesmos ...

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As homilias de infância, aqueles encontros familiares, eram dominados de solavancos sociais, infortúnios morais, sacrilégios éticos e juras de fraternidade. Havia risadas e abraços, disfarces falsários. A violência física estava à mercê do teor alcoólico ou dos desfortúnios descobertos no trabalho ou nas ruas. Sua bagagem e tudo o que trazia na mala determinara sua formação como gente: por dentro, como espírito, por fora, como carne, reunia doçura e agressividade. Doçura para temperar o sangue, e agressividade para ressarcir a violência constitutiva de sua alma. Temia por seu futuro, por seus surtos. Sabia de seus desajustes de convivência. Amadureceu pelo gosto das lágrimas.

Oleg vencera as eleições e festejava com sorriso largo; tinha todas as sensações de um vencedor. Voltou a comemorar [ato de trazer à memória] sua trajetória como vida a vencer muitos obstáculos. Agora teria o reconhecimento que considerava devido. A partir dali todos se interessariam por seu dia, suas decisões, inquietudes, relacionamentos. Até mesmo tudo o que não fizesse seria palco para comentários. Bocas e microfones, redes sociais e esquinas sinfônicas, afinadas ou dissonantes, estariam ali a postos para apontar o certo e o errado, o bem e o mal, as virtudes e as malversações. Os juízes e suas armas prontos aos julgamentos.

Olhou no interior da Casa do Poder, um ambiente formalizado cuja vida transitava em decisões políticas, papéis e assinaturas; reuniões de trabalho, encontros com representantes de si mesmos, fotos e vídeos. Para alguns os fatos mereciam divulgação como ato de mostrar o que era por si mesmo. Incautos, consideravam que uma imagem falaria por si, enquanto para outros tudo isso era mecanismo de comunicação. As imagens não se dizem, enquanto as legendas gritam. A diferença era como dizer e pensar no que dizer: falar é natural, enquanto se comunicar é estratégico.

Oleg sabia disso porque sua formação trazia cortes e cicatrizes, costuras e pontos como memória obrigatória e indisfarçável. Sua mala trazia o útero, o cordão umbilical e as contrações originais que lhe tornara o que era hoje. Em contradição com a vida que tivera, aprendeu a escutar sem interrupção, a separar os conteúdos dos ouvidos em sua mente e a iniciar sua fala pelo ponto que mais dominava. A necessidade de diálogo, exatamente pela ausência, se tornara sua fortune, sua sorte, sua estratégia.

Pela estatura de sua posição, Oleg percebera que seus assessores e ajudantes não poderiam ser um amontoado de gente. Precisava formar uma equipe: cada um em seu local, a fazer pelo conjunto primeiro e por si depois, com reconhecimento de quem liderava antes e comandava a seguir. O líder teria que ser Oleg, ele mesmo! Sabia disso. Mas como se fazer líder, para além do cargo?

Mestre em Sociologia Política


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