Cadeirante desde o parto, Christian explica que consegue andar por curtas distâncias, mas utiliza uma cadeira de rodas motorizada para médias e longas locomoções. Por volta das 20h, o trio chegou ao bar — local que já haviam frequentado outras vezes. Os dois amigos pagaram R$ 100 cada de entrada, enquanto Christian não foi cobrado por ser pessoa com deficiência (PCD).
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O problema começou logo após a entrada, ainda no corredor que dá acesso ao house bar. Segundo o relato, o local estava lotado, com muitas pessoas em pé, além de piso irregular, com pedras, o que dificultava a passagem da cadeira.
Mesmo assim, o grupo acreditava que conseguiria entrar, como já havia acontecido em outras ocasiões. Um dos amigos foi à frente tentar achar uma mesa, enquanto Christian e o outro pediram ajuda aos seguranças para que as pessoas abrissem caminho. A resposta surpreendeu negativamente.
“Disseram que não tinha como eu passar por causa da multidão. E quando pedimos o reembolso da entrada dos meus amigos, falaram que não dava, a única pessoa que não conseguia entrar era eu, que não havia pagado pelo ingresso. Que eles [os amigos pagantes] poderiam aproveitar a festa normalmente”, relata Christian.
O grupo insistiu que havia chegado junto e que pretendia ficar junto. Após algum tempo, a única “solução” oferecida pelo bar foi colocar uma mesa no corredor de acesso, fora do espaço principal da festa, sem cadeiras para os amigos e sem condições equivalentes às dos demais clientes.
Eles permaneceram apenas o tempo suficiente para consumir o que já havia sido pedido e foram embora. “O que mais me marcou foi a postura das pessoas. A dificuldade física sempre existiu ali, mas antes sempre davam um jeito de ajudar. Dessa vez, não”, desabafa.
Christian conta que situações semelhantes não são raras. Ele cita dificuldades frequentes em estabelecimentos privados e até em espaços públicos, como o Museu Histórico de Itajaí, onde o elevador estaria há anos sem funcionar. “As calçadas da cidade também são horríveis. Muitas vezes preciso ir pela ciclovia pra conseguir me deslocar”, afirma.
O que diz o bar
Procurado pelo DIARINHO, o PG Surf Skate informou que não foi procurado no momento para tratar de reembolso e que ninguém teria relatado formalmente a situação à gerência.
Segundo o posicionamento, o bar estava em lotação máxima, o evento era organizado por uma produtora e a circulação estava difícil até para os funcionários. O estabelecimento reconhece que ainda não possui estrutura totalmente acessível, já que parte do chão é de brita, e afirma estar trabalhando para melhorar o espaço.
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O bar também informou que, caso os clientes entrem em contato diretamente pelo Instagram, o reembolso pode ser feito via Pix. “Não precisava procurar vocês”, afirmou o proprietário, dizendo que, na avaliação do estabelecimento, a situação poderia ter sido resolvida diretamente com a casa, sem a necessidade de o caso ser levado ao DIARINHO. Ele acrescentou ainda que irá verificar com a equipe de segurança o que ocorreu.
O que diz a Adefi
A Associação dos Deficientes Físicos da Foz do Itajaí (Adefi) analisou o caso e afirma que a situação pode configurar discriminação indireta, mesmo sem uma negativa explícita de entrada.
Segundo a entidade, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) garante o direito de acesso, permanência e participação plena de pessoas com deficiência em estabelecimentos privados abertos ao público. Barreiras físicas, organizacionais ou atitudinais que, na prática, impeçam esse direito caracterizam discriminação.
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Para a Adefi, a alegação de lotação não isenta o estabelecimento de responsabilidade. A recusa de apoio, a negativa inicial de reembolso e a oferta de permanência em área segregada, fora do ambiente principal, são práticas incompatíveis com os princípios de igualdade e inclusão.
A associação orienta que bares e eventos invistam em medidas preventivas de acessibilidade, capacitação das equipes e adaptação dos espaços, além de reforçar que acessibilidade é dever legal, não favor.
Sem resposta
O DIARINHO também entrou em contato com o Procon de Itajaí e com o Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência, mas não teve retorno até o fechamento da matéria.
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Christian diz que decidiu tornar o caso público para tentar evitar que outras pessoas passem pela mesma situação. “Não foi a primeira vez, mas não pode continuar sendo normal. A gente só quer poder participar como qualquer outra pessoa”, finaliza.