DIZ AÍ, Dagoberto!

“Eu virei turista com a Tante [Lolli] e gostei da profissão”

Dagoberto Blaese Junior | especialista em turismo e agente de viagens há quase 60 anos

"Eu sempre lutei muito pelo crescimento do aeroporto de Navegantes" (Foto: Fran Marcon)
"Eu sempre lutei muito pelo crescimento do aeroporto de Navegantes" (Foto: Fran Marcon)
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Dagoberto Blaese Junior, especialista em turismo e agente de viagens há quase 60 anos, compartilhou um pouco da sua trajetória, memórias e conhecimento com os jornalistas Fran Marcon e Joca Baggio, e a audiência do DIARINHO. Uma viagem, comparando presente e futuro, conduzida por uma figura tão especial de Itajaí. Um convite a assistir a entrevista em vídeo no Youtube do DIARINHO.

 

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O senhor é sobrinho da fundadora do primeiro jardim de infância da região. Como foi essa história?

Dagoberto: Ela foi para Alemanha com 15 anos cursar a escola a convite do padrinho. Mal chegou na Alemanha e estourou a Segunda Guerra Mundial. Ela ficou praticamente 10 anos lá. Ela foi justamente fazer curso pra se especializar em jardim de infância. Felizmente, a guerra acabou. Os pais dela, meus avós, eram professores, eles tinham na época, bem antes da guerra, a Escola Alemã, a Associação Teuto-Brasileira. A vocação está na família. [Mas o senhor fugiu um pouco dessa vocação?] Eu fugi até por culpa dela. Fui um dos primeiros alunos do jardim de infância. Ela gostava de viajar, de dar uma volta pra Curitiba, tinha amigos lá e eu ia de carona, no colo dela, no ônibus. Ela sempre ia explicando as características da estrada, as montanhas, as cachoeiras, os monumentos... Com o passar do tempo, já tinha 13 anos, ela me levou para São Paulo, passamos duas semanas visitando, não só turisticamente, mas também indo até as indústrias... Eu virei turista com a Tante e gostei da profissão.

 

"Nós já somos um destino obrigatório"

 

Na década de 60 quais eram os destinos mais comuns no Brasil e como eram as viagens?

Dagoberto: Ela me levava para passear em Blumenau, Rio do Sul, de trem, eu adorava. Pegava o trem em Itajaí, mas às vezes a gente precisava ir para Jaraguá do Sul, pegar um trem lá para ir para São Bento do Sul. O trajeto que hoje é muito bonito da Serra do Mar. Na época não havia a BR 101. Não tinha outro tipo de transporte, mesclava trem e ônibus. Também tinha um transporte regular de navios de passageiros da Empresa Catarinense, fundada pelo Carlos Hoepcke. [Quando o senhor viajou a primeira vez de navio?] Eu tinha uns 12 anos, um comandante convidou meu pai, minha mãe, eu e minha irmã para fazer uma viagem daqui a Paranaguá. Eu me lembro muito bem a partida de Itajaí, saindo no rio… Eu chego a me emocionar porque foi muito bonito. [Pouca gente lembra que Itajaí teve aeroporto, onde ficava e como era?] Ele foi construído no final da década de 40. Antes Itajaí tinha um campo de pouso na rua Uruguai. Bem antes disso, no dia 2 de janeiro de 1927, o então ministro da aviação do Brasil, Victor Konder, itajaiense, foi convidado pela fabricante de aviões para fazer uma viagem teste de hidroavião. Ele veio inicialmente no dia primeiro de janeiro, o YouTube tem filmes, pousou em Florianópolis para visitar o irmão, que era o governador, e no dia 2 de janeiro ele pousou aqui em Itajaí, na praça Vidal Ramos. No dia 2 de janeiro do ano que vem fará 100 anos dessa data extremamente importante. Antigamente, era aeroporto no rio. Depois os aviões vieram para fazer pouso em terra. Esse aeroporto de Itajaí foi construído pensando grande. Ele tinha duas pistas em cruz. A estação de passageiros era lindíssima, está lá parcialmente até hoje, na rua Blumenau, onde é a sede do escritório da Celesc. Itajaí, na época, era um grande centro de aviação de voos nacionais. Houve uma ideia dos governantes de construir um novo aeroporto no então bairro de Navegantes. Esse aeroporto foi construído no outro lado do do rio e ficou vários anos sem ser utilizado. Eu me lembro dessa minha primeira decolagem, em 69, de Itajaí pra São Paulo; o avião decolava e passava em cima dessa pista. Depois Navegantes foi emancipado e virou município. O aeroporto começou a funcionar em 1970.

 

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O senhor foi estagiário do seu Reinaldo, dono da Agência Mundial. O que mais lhe marcou no aprendizado do ofício com ele?

Dagoberto: O seu Reinaldo era uma pessoa extremamente dedicada aos seus clientes. Se o cliente precisava de um favor em São Paulo ou tinha esquecido uma chave num hotel, o Reinaldo falava com alguém para trazer essa chave. O avião chegava em Itajaí, ele pegava os jornais velhos, recolhia, dobrava direitinho e levava para os seus clientes. Ele prestava esse serviço e com isso cativou a clientela. Esse tipo de serviço me deu vários exemplos para minha profissão.

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"O aeroporto de Navegantes sempre foi o Patinho Feio dos aeroportos do Brasil"

 

O senhor cursou a primeira faculdade de Turismo do Brasil. Quais eram os principais aprendizados?

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Dagoberto: Era um aspecto totalmente novo o turismo. Foi a primeira faculdade, criada por um grupo de idealistas de São Paulo. Quando vi a notícia no jornal, no Estadão, eu digo: “meu Deus, é isso que eu preciso”. Eu fui a São Paulo, fiz o vestibular, errei poucas perguntas. Depois de meio ano mais colegas de Itajaí vieram. O Mazoca, Osmar Nunes Filho, foi também atrás. O que é turismo? É muita coisa, é igual dizer Medicina. Cada médico tem sua especialidade. A medicina se ramificou, o turismo é a mesma coisa. Nós temos em turismo a hotelaria, temos a parte de agenciamento, de vender. O agenciamento se divide em especialização, por exemplo, de aviões ou em torno de cruzeiros. Nós temos também a parte de planejamento turístico.

 

"Eu sempre lutei muito pelo crescimento do aeroporto de Navegantes"

 

Como era fazer turismo no Brasil nas décadas de 1960, 1970 e 1980? 

Dagoberto: O turismo naquela época estava começando. O Brasil era um grande desconhecido. Os turistas vinham inicialmente pro Rio de Janeiro, que é o destino número um; seguido de Foz do Iguaçu, as Cataratas, depois Salvador, na Bahia, e também a Amazônia, que era um chamariz. O Brasil não tinha muitos voos e não havia voos diretos. Por exemplo, você pegava voo de São Paulo para Belém. Ele pingava em Rio, Vitória, Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, Teresina, levava quase 14 horas. Viajar de avião nos anos 70 era bem difícil.

 

"A construção da Marina Itajaí é um fato histórico"

 

A Varig marcou época com voos que ofereciam uma experiência a bordo. Hoje, nos voos nacionais, é servida, muitas vezes, apenas a água. A mudança no serviço de bordo era necessária?

Dagoberto: Na época, as companhias aéreas vendiam em função do serviço. Elas competiam em função do serviço e a Varig tinha realmente um excelente serviço de bordo. Na época do Boeing 707, o comissário tirava o uniforme e colocava o smoking. Servia os passageiros de smoking na econômica, vinhos franceses… Isso aconteceu quando eu fui trabalhar na Swissair, era um serviço dos melhores do mundo. Aliás, as duas tinham um dos melhores serviços do mundo. O que aconteceu depois, os Boeings 707 foram substituídos pelos aviões maiores, pelo DC 10, a quantidade de passageiros dobrou. [Qual é o papel do agente de viagens daquela época para agora, no mundo digital?] Antigamente, a propaganda da companhia aérea era: “procure a Varig ou seu agente de viagens”. Essa era o lema. Com a internet, as companhias aéreas querem vender direto, nem sempre mais em conta, muitas vezes, igual. Só que, para certo tipo de viagem, a compra pela internet funciona. O grande gancho do agente de viagem é o suporte que ele dá para o cliente. Se ele precisar de qualquer ajuda, precisar alterar qualquer coisa, liga pro agente de viagem. Porque nesses 0800 você não fala mais com o ser humano, você fala com robô. Talvez se você insistir muito e teclar nas teclas certas, você vai conseguir falar com um ser humano. Mas é sempre tudo muito impessoal. 

 

"Nós já somos um destino obrigatório"

 

O aeroporto de Navegantes tem o título de internacional, mas podemos considerá-lo de fato um aeroporto internacional?

Dagoberto: Nós até já tivemos voos regulares internacionais para Buenos Aires. Hoje não mais. Ele é Internacional para a aviação executiva. Há 40 dias, tivemos o início das operações de voo cargueiro para Navegantes, com aviões grandes, o Boeing 767 300, que, para mim foi um acontecimento bastante histórico. Eu sempre lutei muito pelo crescimento do aeroporto de Navegantes. Tenho dezenas de artigos escritos durante todos esses anos. Eu acho que a região comportaria voos para Buenos Aires e Chile. O aeroporto de Navegantes sempre foi o Patinho Feio dos aeroportos do Brasil. Hoje nós temos no aeroporto Navegantes quase 30 operações diárias, com quase 200 lugares por avião. [O senhor acredita que a internacionalização efetiva do aeroporto de Navegantes estaria vinculada a uma segunda pista?] Eu diria que não tem a ver com a segunda pista. O que está faltando é vontade política dos governos de também ter voos internacionais em Navegantes. Operacionalmente, não tem problema, o aeroporto comporta. A segunda pista eu considero uma necessidade em função de que nessa pista de hoje, com 1700 metros, o aeroporto pode operar esse avião grande, Boeing 767, mas com certas restrições de peso e decolagem. Uma segunda pista numa área que ainda existe. Isso é um detalhe que eu quero frisar bastante: ainda existe essa área verde, preservada, para fazer essa implantação de uma pista um pouco mais longa, para voos mais longos, mais distantes. Daqui a 10 anos talvez tenhamos... 

BC é um dos destinos turísticos mais cobiçados do Brasil. Quais foram os “pulos” que a cidade deu para conquistar esse título?

Dagoberto: São vários motivos, um deles, a BR 101 inaugurada em 71. Até aquela época dos anos 80, não havia estradas. Tinha somente a 101 que era uma catástrofe. [Pista simples…] Exatamente. Cresceu em função da facilidade do acesso. Tivemos também uma série de boas construtoras que se estabeleceram em Balneário que, aliás, muitas delas se criaram aqui. Outro ponto importante, em termos de turismo na região, é o Beto Carrero World. Os cruzeiros passam em Itajaí e em Balneário Camboriú. Isso é um fato novo que sem dúvida vai revolucionar ainda muito o maior crescimento do turismo. Itajaí tem que investir num novo terminal. 

Itajaí já foi sede de regatas internacionais, sedia o salão náutico Marina Itajaí e é escala de navios de cruzeiro. Como o senhor vê o crescimento do município no turismo?

Dagoberto: As cidades têm que se unir. Não adianta cada cidade querer dar um tiro para o seu lado. Nós temos que nos unir e fazer com que esses turistas que chegam aqui sejam informados antes das atrações que nós temos. [E o senhor acha que Itajaí tem potencial para se tornar um destino obrigatório?] Nós já somos um destino obrigatório. A cidade nasceu pronta, falta só moldar, polir e caprichar. Falta um pouco mais de capricho. Por exemplo, nunca mais fui no Morro da Cruz, mas ia acontecer uma reforma... [A obra está em andamento…] A gente tem uma vista fantástica. É um lugar único, gente! 

O que o senhor mais gostava na Itajaí de antigamente e o que lhe enche de alegria com o crescimento da cidade?

Dagoberto: Sinto muita falta dos bons tempos. Íamos às tardes dançantes no Clube Guarani. Tinha o Seares Bar, na Pedro Ferreira, onde é hoje a casa da cultura. Essa edificação antiga de Itajaí, eu acho muito bonita e ela tem que ser revitalizada e preservada. Meu pai trabalhou por décadas na Companhia Malburg, na rua Pedro Ferreira, onde hoje é a Receita Federal, me dói o coração quando eu passo e vejo fechado com tapume. [Itajaí vem perdendo muitos os casarões históricos do centro, o bar da Trude…] O Trude´s Bar foi um pecado. Outro casarão, casinha, que também me causa muita dor no coração, é a antiga administração do Porto de Itajaí. A [E o que que lhe surpreendeu positivamente na cidade com o crescimento?] Sem dúvida, um fato preponderante para o crescimento de Itajaí foi a Marina. A construção da Marina Itajaí é um fato histórico. [Turismo é uma paixão para o senhor?] O turismo é uma paixão. Eu nasci no dia 20 de julho, que é o mesmo dia que nasceu o Santos Dumont. Desde pequeno sempre gostei de aviação e sempre gostei de viajar com a Tante Lolli. Fiz disso a minha profissão e dou minha vida por ela. 

 



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