Matérias | Entrevistão


Fernanda Takai

"...Rock de menina é superbom. É feito por gente muito capacitada e talentosa”

Escritora e vocalista da Banda Pato Fu

Franciele Marcon [fran@diarinho.com.br]

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A banda Pato Fu, atualmente formada por Fernanda Takai, John Ulhoa, Ricardo Koctus, Xande Tamietti e Richard Neves, nasceu em 1992. Com 30 anos de estrada, o Pato Fu coleciona dezenas de sucessos e shows memoráveis Brasil afora. Se hoje a carreira está consolidada, nem sempre foi assim. No início houve muito nariz torto para uma banda de pop rock que tinha uma mulher no vocal. Talentosa, logo Fernanda Takai mostrou que sabia fazer rock. Cantora, compositora e multi-instrumentista, ela também investiu na carreira solo e chegou a gravar em parceria com o ex-guitarrista do The Police, Andy Summers, em 2012. Fernanda e o Pato Fu tiveram indicações ao Grammy – um dos maiores prêmios mundiais da música. De passagem por Itajaí para participar da abertura do Festival Literário de Itajaí (FLI), Fernanda Takai, que também é escritora, conversou com a jornalista Franciele Marcon. A entrevista foi na última terça-feira, dia de luto pela perda de Rita Lee. Fernanda falou sobre o processo de criação, teceu críticas à falta de paridade salarial entre homens e mulheres, convocou os músicos a pensarem em um licenciamento musical que seja mais justo para quem escreve as letras e também se colocou à disposição para voltar a Itajaí para uma das edições do nosso Festival de Música.

A entrevista completa, em áudio e vídeo, o leitor confere no portal DIARINHO.net e em nossas redes sociais.



As imagens são de Fabrício Pitella.

 


DIARINHO - São 30 anos de carreira do Pato Fu. Foram 13 discos, um troféu no Grammy Latino e a banda chegou a ser eleita pela Time como uma das melhores do mundo. Vocês conquistaram tudo que imaginaram ?

Fernanda: É difícil viver de música, mas chegar a alguns lugares e ganhar alguns prêmios é mais difícil ainda. O John [parceiro da banda e marido de Fernanda] costumava falar “acho que o Pato Fu é uma banda improvável”. Ele já tinha tido outras bandas antes da gente. Eu tinha banda de colégio. Mas pelo formato de som que a gente faz, as músicas não são iguais. Cada disco, cada música, é de um jeito. A indústria e o mercado funcionam muito com “ah, você é assim, você cabe ali”. O Pato Fu nunca coube assim certinho, confortavelmente, em nenhum lugar. A gente sempre se expandiu. Entrava num lugar, saía para outro. Olhar para trás e ver essas conquistas todas e a banda com vontade de seguir em frente, lançando músicas novas, acho que é um bom sinal.


DIARINHO – Você foi ao primeiro show da sua vida aos 11 anos. O gosto pela música veio do pai, da mãe, da família? Como surgiu a música na tua vida?

Fernanda: Nem meu pai nem minha mãe tocavam instrumentos. Minha mãe tem uma voz muito bonita, mas ela não canta profissionalmente, nunca cantou. Gosta de ouvir música e cantar. O meu pai, ele era filho de japoneses, mas foi ele que me fez gostar de música brasileira, porque ele era encantado pela Bossa Nova, Tom Jobim, Nara, Clara Nunes, Benito de Paula. E a minha mãe, que é alagoana e tem ascendência portuguesa, sempre gostou das coisas de fora. Ela gostava de Johnny Matts, de Carpenters, de Abba. Eu cresci com essa diversidade, ouvindo um pouquinho de tudo e ouvindo muito rádio. Eu sempre gostei de música. Mas não pensei em ter carreira porque eu não tinha ninguém na minha família que tinha trilhado esse caminho. Mas acho que sim, com 9 anos eu ganhei um violão. A música me ajudou a socializar num bairro novo, quando eu me mudei para Belo Horizonte. A música esteve sempre comigo. A surpresa é viver de música realmente.

 

O Pato Fu nunca coube assim certinho, confortavelmente, em nenhum lugar”

 


DIARINHO – Além de cantora e de vocalista do Pato Fu, você também fez composições solo, é compositora e escritora. Como é esse processo de produção?

Fernanda: O processo na música tem um prazo mais subjetivo, mais dilatado. A gente vai juntando algumas canções, mas não tem um horário. “Eu preciso fazer isso para entregar nessa data”. A minha faceta literária, digamos, começou como colunista de jornal. Vocês bem sabem que tem o famoso deadline que o editor te mata se você não entregar a tempo. Eu fiquei muito bem treinada, disciplinada, na produção de texto. Mas, escrevendo para esse público amplo de jornal, a minha tentativa era trazer temas que fossem não necessariamente da minha vida de cantora. Era da minha vida de dona de casa, de mãe, filha. Eu me comuniquei com um público completamente diferente do da música. Foi um aprendizado. Tem sido.

 

 


DIARINHO – O mercado e o público aceitaram bem uma vocalista mulher em uma banda de rock ou houve preconceito?

Fernanda: Quando as coisas estão acontecendo a gente realmente não se dá conta do tamanho do universo, que é extremamente masculino, extremamente preconceituoso em vários setores, mas não é diferente no show business. Tem gente que não gostava do Pato Fu simplesmente porque a vocalista era mulher. No começo, o John dividia mais comigo os vocais e o Ricardo também canta. Mas teve um momento que eu passei a cantar mais. Eu vi algumas críticas, o pessoal: “não, mas isso aí é rock de menina”. Só que rock de menina é superbom. É feito por gente muito capacitada e talentosa, que vai, sobe no palco, que toca guitarra e que faz música. Talvez no início eu não enxergasse o tanto que as outras mulheres que estavam já na música estendiam a mão para mim. Hoje, a consciência da gente, a minha e, principalmente, do povo mais novo, elas já sabem que tem que cobrar isso. Tem que cobrar essa paridade. No meu show solo eu tenho mais mulheres do que homens. No palco somos três mulheres e dois caras e eles ainda usam saia. [risos]. Quando eu vou fazer um trabalho, eu falo: “eu quero ter uma técnica de luz, uma engenheira de som também”. Eu tenho uma produtora, meu escritório de produção tem muitas mulheres. [Você ter visto semana passada algumas deputadas, inclusive de Santa Catarina, votando contra a igualdade salarial espantou...] Eu me espantei realmente com a quantidade de votos contra que a votação teve. Num dá para entender. É um direito, é um dever das empresas, das corporações, dos governos, reconhecerem a capacidade igual de homens e mulheres. Não é que a gente é melhor, não! Somos iguais e a gente quer trabalhar nesse mundo mais justo.

 

Tudo que a gente faz nos passos de carreira é movido pela democracia”

 

DIARINHO – O Pato Fu surgiu antes da internet ter feito um divisor de água no mercado musical. Como você vê as plataformas de streaming e essa interação com o público nos dias de hoje?

Fernanda: Talvez ela tenha ficado mais fragmentada, principalmente pro público que está em construção. Acho que o público que veio ali do CD, do vinil, do cassete e tudo mais, tem a coisa de acompanhar carreiras, a internet trouxe muita coisa. O público que gosta de se aprofundar tem na internet um superparceiro. Mas talvez para o público muito novo... estejam recebendo as informações de uma forma muito fragmentada e superficial. Você gosta de uma música. Você vai num show, aí o ano que vem a pessoa vai vir, você não quer mais porque não tá ouvindo mais aquela música. A gente não pode lutar contra isso, mas acho que quem tá aí há mais tempo tem que se adequar às novas tecnologias e botar a música disponível em todos os formatos. E uma coisa que a gente tenta cobrar e está em discussão no mundo inteiro, não só no Brasil, é a prestação de contas, porque o tanto que as grandes empresas de tecnologia arrecadam comparado com o que o produtor de conteúdo, quem criou a música, a propriedade intelectual da música, é completamente ignorada em prol de views. [As pessoas que produziram, que pensaram, que fizeram a música acabam ficando com uma fatia bem pequena...] Muito pequena. Ainda tem a coisa de ir para a estrada, o show. Mas muita gente é só autor. O autor vive do que ele escreve. Se ele não é remunerado por isso, é muito difícil viver. Você vê gente em dificuldade. [Mas é um movimento que avança?] Eu acho que o papel do Brasil, sendo um dos maiores mercados do mundo do entretenimento, se a gente conseguir avançar, vai ser um marco que pode ser seguido por vários outros países. O Brasil tem uma relação muito boa com o direito autoral europeu. Agora, o direito autoral dos Estados Unidos já é mais difícil. Ele é muito de compra de direitos. Você cria um negócio, alguém vai lá “te dou um dinheiro agora” e você perdeu o seu direito pelo resto da vida. Mas você ganhou a grana. A gente tem que lutar contra essas pessoas que têm dinheiro e chegam e te falam “te dou um saco de dinheiro agora. Você me dá sua música?”. Coisa que se fazia no samba de morro, há muito tempo. Esse poderio econômico deixa todo mundo muito refém.

 

“A gente ainda é muito consciente das próprias ideias, de que precisa oferecer uma obra nova para apreciação. Não pegar o que as pessoas querem que a gente faça”

 

DIARINHO – A chegada massiva das redes sociais, com uma possibilidade maior de medir a audiência, interfere no processo criativo da banda?

Fernanda: Falando no caso do Pato Fu, a gente ainda é muito consciente das próprias ideias, de que precisa oferecer uma obra nova para apreciação. Não pegar o que as pessoas querem que a gente faça para elas. Mas é uma linha tênue. A gente lutava contra isso antes das redes serem desse jeito. Agora que elas estão desse jeito é uma luta mais difícil.

DIARINHO – A sonoridade do Pato Fu é um dos diferenciais da banda, com o uso de guitarras, elementos eletrônicos e uma voz suave no vocal. Isso conquista mais o público?

Fernanda: Todos nós do núcleo inicial da banda, eu, Ricardo e John, que foi o trio do começo, temos muita coisa em comum, diria, com os anos 80. Tanto do rock brasileiro quanto do rock de fora, pop rock. Mas a gente é muito diferente, cada um tem o seu universo. Eu gosto muito de música bem pop, bem tranquila. De vocal gostoso de ouvir, eu escuto muitas vozes femininas e puxo essa sardinha pro meu lado. Na faculdade, por exemplo, eu tinha uma banda que fazia música própria, mas tocava Sade Adu, Eurythmics, ou seja, Suzanne Vega. Isso já tá em mim como ouvinte e aparece na banda em alguns momentos. Mas aparece o lado do John, um cara que gosta de programações malucas, de uma guitarra bem espetada. O Ricardo é totalmente anos 50, gostava do Elvis do início de carreira. O Xande, nosso guitarrista, teve o início aprendendo jazz. O Richard, que entrou agora, nosso tecladista, já traz uma outra vivência, de Clube da Esquina, da Latino América que ele conhece. Isso tudo faz com que o Pato Fu tenha espaço para poder abarcar essas vontades, porque se não fosse assim a banda não estaria junto. Tudo que a gente faz nos passos de carreira é movido pela democracia. A gente sempre coloca em votação, é engraçado. É uma votação pequena. O nosso empresário é nosso sócio. Há quase 30 anos é o mesmo empresário, e ele tem voto também. Acho que a democracia faz bem. [E quem perde na votação vai para frente do quartel protestar?] Não, não [risos]. O mais legal é que quem perde é porque foi convencido. A gente não perde e fica emburrado. Não dá para ficar assim. A gente convence os outros. Realmente põe em debate. Até para fazer capa do disco, quando foi para fazer agora com o Bruno Honda. Cada um trouxe um artista. Eu fiz a defesa do Bruno e mostrei as coisas do Bruno. Eu ganhei, “ganhei”, mas todo mundo ganhou porque ele é maravilhoso. E chegou a conclusão que ele ia ser a pessoa mais legal para trabalhar com a gente.

 

“Tem gente que não gostava do Pato Fu simplesmente porque a vocalista era mulher”

 

DIARINHO – Itajaí tem um festival de música conhecido nacionalmente. O Pato Fu não tocou no festival. Mas agora você vem para participar do festival literário de Itajaí. Você já conhecia essa efervescência cultural do município catarinense?

Fernanda: Tô sabendo desse festival que já vai fazer 25 anos.... Olha a dica: Pato Fu! A gente tá com esse show sendo montado, vai estrear dia 7 de julho, e é um show que vem com as músicas mais importantes da nossa discografia, vem com canções novas. Esteticamente é bem bacana também. Gostaria muito de apresentar aqui.

DIARINHO – Como escritora, você tem quatro livros publicados: “Nunca Subestime Uma Mulherzinha” (2007), “A Mulher Que Não Queria Acreditar” (2011), “A Gueixa e o Panda Vermelho” (2013) e “O Cabelo da Menina” (2016), que conquistou o prêmio Jabuti na categoria livro digital. Como surgiu a escritora Fernanda?

Fernanda: Surgiu com a carreira de cantora. A carreira de cantora me trouxe vários convites para escrever textos. De seis em seis meses escrevia um texto para uma revista diferente: Playboy, Globo Rural, Pais e Filhos, revistas de músicas. Os editores dos jornais viram essa produção e me fizeram convite. Eu fiquei seis anos escrevendo, toda semana, para dois grandes jornais do mesmo grupo, me surpreendi, olhando assim, fui olhar meu folder de colunista. “Nossa, eu tenho muito tempo”. Fiz as duas primeiras compilações, porque eu comecei em 2005 a escrever e a internet ainda não era viável para todo mundo. Tem muito texto que as pessoas não leram. E tinha que ser assinante também, tinha que fazer o login ou comprar o jornal. Então quem não era de Minas ou do Distrito Federal não lia meus textos. O primeiro livro infantil que eu escrevi veio junto com a “Música de Brinquedo I”, quando um público muito jovem veio se conectar com o Pato Fu. Eu tinha essa história já na cabeça depois da minha primeira visita ao Japão. Foi tudo baseado em coisas que eu vi e ouvi lá. Assim saiu “A Gueixa e o Panda Vermelho”, meu primeiro livro.

DIARINHO - Recentemente o Chico Buarque disse que não iria mais cantar “Com açúcar com afeto” por conta de ser uma música “machista”.  Você disse que continuaria cantando por conta da beleza musical e da história que ela conta. Por isso que você decidiu manter essa música em seus shows?

Fernanda: Eu acho que a Nara não deixaria de cantar essa música por conta disso, porque foi uma música que ela encomendou ao Chico. É uma música sobre uma personagem. Uma mulher. Esse tipo de mulher que sofre pelo marido. Ele trata mal, mas ela fica ali e o recebe de braços abertos. É como um personagem de livro. Essa mulher existe. A gente está dando voz a ela naquela canção. Essa música estava no meu primeiro disco solo. Eu sempre falava depois. “Ô, essa aqui é a música que o Chico vez para a Nara sobre a mulher sofrida. Mas agora ela deixou gravado esse recado na secretária eletrônica: fui para a praia tomar um Martini ou um gim tônica”. Ou seja, essa mulher mudou. Mas ela ainda existe. A Nara, eu tenho certeza, que ela ia separar o que é obra da realidade. Um ator, uma atriz, não vai deixar de fazer um vilão porque “ah, não, a gente não pode falar dos vilões e vilãs...”

DIARINHO – O Pato Fu fez trabalho para crianças, Música de Brinquedo. Como foi esse processo?

Fernanda: O show do Música de Brinquedo, praticamente, a gente não consegue parar de fazer. Eu lanço disco solo, Pato Fu faz shows diferentes e tudo mais. Mas sempre tem gente querendo o “Música de Brinquedo” de novo, porque é um show que tem música pop de todos os tempos, do mundo inteiro. Não só as crianças ficam loucas com o show, os adultos também. Eu gosto desse desafio de falar uma coisa, mas para muita gente diferente. Tem o Giramundo, que é teatro de bonecos, que faz o show com a gente, os monstros, e agora vai sair uma série.

DIARINHO – Perdemos um dos maiores ícones da música brasileira, a Rita Lee. Você gravou com ela, participou de shows...

Fernanda: A Rita talvez seja a mulher mais importante, pelo menos pro nosso segmento do pop rock, mas ela é importante para a música do Brasil como um todo. E ela sempre foi muito amorosa com a gente, desde o início do Pato Fu. Ela gravou música do John. Eu gravei da Rita pelo menos em quatro canções. Está no meu show! No show do Pato Fu tem música da Rita. E as pessoas sabem que a gente tinha uma relação muito bonita. [Você foi no show dela com 11 anos. O que te chamou atenção naquela mulher que cantava?] Foi o primeiro show que eu vi, num ginásio com 30 mil pessoas. Tinha uma mulher, era a turnê do Saúde. Ela trocava de roupa, tocava guitarra. E  comandava todo mundo. Era a rainha e os súditos. Foi muito impactante. Foi o primeiro show que eu fui, de gente grande. E nessa época eu já tocava violão. Eu comecei com nove. Ver a Rita Lee: “olha o que uma mulher com uma guitarra é capaz”... Foi muito bonito. Sempre foi uma inspiração.

 

 

Raio X

Fernanda Takai

 

Nome: Fernanda Takai

Naturalidade: Serra do Navio [AP]

Idade: 51 anos

Estado Civil: casada

Filhos: uma

Formação: Relações Públicas e Comunicação Social pela UFMG

Trajetória: vocalista da banda Pato Fu desde 1992; iniciou carreira solo em 2007, colunista dos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas; autora de cinco livros; em 2001 a banda Pato Fu entrou na lista das 10 melhores bandas do mundo da revista Time; fez parceria musical com Andy Summers, ex-integrante do The Police, seu projeto solo Na Medida do Impossível ao Vivo no Inhotim foi indicado ao Grammy Latino de 2017 de Melhor Projeto Gráfico, e o álbum Será Que Você Vai Acreditar?, da Pato Fu, foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum Pop Contemporâneo em 2021.




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