Itajaí

Os Wolff desbravaram o Estaleiro antes da Interpraias

A possibilidade de viver em meio a natureza atraiu o artista alemão, que se inspira na paisagem que o rodeia

Muita gente tem crise aos 30, ao se dar conta de que não é mais tão jovem, como se as oportunidades diminuíssem. Mas, para o alemão Rainer Wolff, 60, foi o contrário. Sua vida recomeçou quando aceitou o convite do pai, que veio dois anos antes, para ajudá-lo a dar forma a propriedade na deserta praia do Estaleiro, e trabalhar com ele no café Eucalipto, no centro de Balneário. “Eu estava solteiro e sem vínculos em Berlim. Então, vim conhecer a cidade e só voltei para buscar minhas coisas. Alemanha, agora, só a passeio”, garante. 

Reiner disse que, logo que chegou, muitos argentinos tinham casa na cidade, e fizeram do café na avenida Brasil um ponto de encontro. “Argentino é parecido com o alemão: gosta de sentar numa mesa com café, pães, doces, frutas, e conversar sobre tudo, de política a futebol”, justificou. O Eucalipto funcionou até 1992. Paralelamente, ele também foi convidado para pôr em prática seu lado artístico. Em 1990, fez um monumento no calçadão da Central, encomendado pela prefeitura, em homenagem ao trabalhador, na época da primeira urbanização da orla. “Meu primeiro bronzeado brasileiro foi trabalhando na obra”, brinca. 

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Aliás, aprender o idioma não foi problema, já que Reiner se diz curioso. “No iní- cio, ainda me mantinha no meio dos descendentes de alemães, mas, depois, percebi que para me integrar precisava me misturar. Em 1996, conheci minha esposa Cláudia numa exposição, e tudo fluiu,” recorda. Ele também preside a DKV (Associação Alemã Cultural) que, a princípio, era para alemães e seus descendentes, mas hoje abriga gente de qualquer origem. “Temos gente de Angola, Argentina, Portugal, é bastante enriquecedor”, descreve. 

A casa que seu pai construiu está diferente. A pequena construção deu lugar a um chalé de madeira e pedra com inspiração alemã e pé direito alto, com paredes suficientes para acomodar as várias fases do artista. Telas com pegada cubista, esculturas, luminárias de palha e de fios de plástico, e muitos bonsais de alumínio. Uma coisa não mudou: água da rede não existe. “Até hoje captamos água da chuva porque depois das obras da avenida, ficou impossível achar uma fonte. Só ficamos uma vez sem água por causa da estiagem”. 

Reiner também comandou por dois anos um programa em rádio e uma coluna em jornal. “Eu me sinto 50%/50%. Tem vezes que penso em português, sonho em alemão, é uma confusão”, ri. Da Alemanha, ele diz gostar da organização, da eficiência, mas não curte o excesso de rigor. E também questiona os conterrâneos que não aceitam refugiados. “Afinal, o que é ser alemão? Até o século 19 era um punhado de condados, a Prússia, a Bavária, e os alemães também migram,” argumenta. Sobre o Brasil, ele diz gostar da liberdade e do estilo de vida. “Todo lugar tem coisas boas e ruins. Tenho fé que se a questão da corrupção for resolvida, o Brasil será uma potência, pois recursos naturais e humanos não faltam”, afirma.



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