Itajaí

Marlene Rothbarth a guardiã da memória

A professora aposentada é a mais fiel guerreira na luta pela preservação histórica de Itajaí

Por Mariângela Franco

Os serenos olhos verdes se apertam e o sorriso é malicioso ao comentar o que gostaria de fazer, não fosse o medo de parecer uma velha ridícula: ir de casa em casa perguntar se concorda que determinada ...

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Os serenos olhos verdes se apertam e o sorriso é malicioso ao comentar o que gostaria de fazer, não fosse o medo de parecer uma velha ridícula: ir de casa em casa perguntar se concorda que determinada casa seja derrubada ou se deveria ser preservada como patrimônio da cidade. Caso houvesse simpatia à sua ideia, estenderia um abaixo-assinado para depois entregar às autoridades.

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Assim é Marlene Dalva da Silva Rothbarth, itajaiense nascida em 26 de agosto de 1933. A luta pra salvar o que resta do patrimônio material de Itajaí é a sua marca registrada. A escritora nasceu na Vila Operária, numa das casinhas construídas pela fábrica Renaux para os empregados. Depois, a família se mudou pra rua Samuel Heusi, no centro, onde a primogênita da família Silva morou até os 15 anos. Ela ainda morou na Barra do Rio até casar.

O casamento veio assim que recebeu o diploma de professora, através do curso Normal no colégio São José, aos 19 anos. Arno Roberto Rothbarth era securitário da Minas Brasil, empresa de se­guros que funcionava no casarão Malburg. Depois de um ano de troca de olhares e conversas vigiadas no clube Guarani, o casal “firmou compromisso”, mas o casório só rolou quando o enxoval ficou pronto. E demorou um ano pra noiva bordar lençóis, fronhas e toalhas de mesa, já que só as toalhas de banho eram compradas prontas. Os três filhos, Eduardo, Arno e Márcio, vieram logo em seguida.

A trajetória como professora começou no grupo escolar Floriano Peixoto, atual escola estadual Nilton Kucker, onde lecionou por um ano. Depois, lecionou para turmas de 2ª à 4ª séries no Victor Meirelles, onde fica, hoje, a casa da cultura. As turmas já eram mistas, mas o recreio era separado. Aliás, Marlene foi uma das pes­soas que insistiu para manter a inscrição “secção feminina e secção masculina” na frente do prédio quando foi restaurado. “É uma maneira de mostrar às novas gerações um modo de vida que não existe mais”, explica.

Em 1968, Marlene fez con­curso pra ser diretora. Assumiu a direção do grupo Francisco de Paula Seára e lá atuou por 13 anos. Em 1973, seu marido morreu, vítima de problemas circulatórios. Depois, atuou como inspetora escolar e chefe de seção. A aposentadoria che­gou em 1983. Marlene conta que já tinha tudo esquematizado pra quando este dia chegasse. Primeiro, dormiria tarde e acordaria tarde. Depois, tomaria aulas de pintura. Por fim, escreveria crônicas para serem publicadas nos jornais da cidade. Seu trabalho como colunista lhe rendeu um convite pra dirigir o museu Histórico, em 1989.

Carreira de escritora

Em 1999, ela escreveu seu primeiro livro: “Uma história de família – genealogia das famílias Silva e Rothbarth”, sobre sua própria família. O pró­ximo trabalho nasceu a pedido da amiga e artista plástica Lindinalva Deóla, que estava produzindo o livro “Itajaí – imagens e memória”. Marlene participou com três textos, um deles contando sobre o casarão de Primo Uller, o construtor da vila dos empregados da fábrica Renaux, cujo imóvel so­breviveu aos novos tempos.

Em 2001, a dupla lançou “Famílias de Itajaí – mais de um século de história”, sobre 13 pioneiras, como os Seára, Rodi, Gaya, Heusi, Werner, Reiser, Malburg, Konder e Schmitt. Em 2005, publicou a segunda parte do projeto, com mais 16 famílias. Mas, ao pesquisar sobre a família Asseburg, encontrou pouca informação. O destino, no entanto, se encarregou de dar uma forcinha.

Numa viagem ao Nordeste, Marlene encontrou um bisneto de Felix Asseburg, cujo pai, Guilherme Asseburg, foi empresário de sucesso e político na terrinha papa-siri. A empresa da família ficava na esquina da rua Lauro Müller com a praça Vidal Ramos, local que por muitos anos esteve abandonado até ser derrubado e instalado um estacionamento no lugar. Marlene teve contato com alguns dos descendentes do patriarca alemão pra patrocinar o livro “A saga da família Asseburg”. Durante o lançamento, foi assinada a lei que nomeia o píer Turístico “Guilherme Asseburg”, instalado no local onde havia um trapiche.

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Baluarte do patrimônio

A escritora também se descobriu uma lutadora ferrenha contra o pouco caso das autoridades com o que resta de antigas construções. Desde 1979, quando foi criado o conselho do Patrimônio, ela empunha essa bandeira, mas confessa estar cansada de tanto blablablá e pouca ação. “Não tem como cobrar nada, não temos autoridade suficiente”, lamenta.

Nem sempre as coisas dão errado. Um exemplo é o Casarão Malburg, na rua Pedro Ferreira, onde hoje funciona a receita Federal. Dona Marlene bem conhece aquela casa, pois houve um tempo em que alugou algumas dependências. A mansão de três pisos tinha um anexo chamado ‘rancho’, onde eram feitos serviços como lavanderia e padaria, e um porão que servia de adega. A receita Federal queria derrubar tudo pra construir um prédio mais moderno. A insistência e os argumentos do conselho do Patrimônio venceram, ainda que o anexo tenha sido sacrificado.

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Literatura infanto-juvenil

“Acho que temos que investir em educação patrimonial”, sugere. “Nós vemos que, às vezes, falta uma legislação que possa dar apoio”, lamenta, lembrando que o plano diretor de Itajaí em vigor é dos anos 1980. O mais recente foi revogado pelo ministério Público, que alegou falta de consulta popular. O novo documento está amarelando em alguma gaveta até que volte à discussão e seja aprovado. Até lá, o limite de andares dos prédios do centro e Beira-rio fica liberado, daí a pressa das construtoras em derrubar os casarões históricos pra erguer os espigões.

No último livro de Marlene Rothbarth, ela descobriu o universo infanto-juvenil, mas sempre com o intuito de preservar o patrimônio histórico. “Júlia e Gabriel visitam Itajaí” foi publicado em 2008, através da lei Municipal de Incentivo à Cultu­ra. Este ano, rolou uma edição especial através da lei Rouanet, para a impressão de três mil exemplares que estão sendo distribuídos a entidades e escolas das três capitais da região sul. A próxima empreitada é “Itajaí em crônicas”, com mais de 160 fotos, que será lançado em julho ou agosto, como parte dos eventos em comemoração aos 150 anos da cidade.

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