Colunas


Avião, riquezas e floresta


A rotina de Oleg era uma acumulação de pressão e pressa. Precisava sempre alongar seu dia para manter as mesmas coisas. Passou a dormir menos, acordar mais cedo, adiantar-se ao sol. Dormia cansado e acordava sem o descanso suficiente. Ao fim das sextas-feiras se autoproclamava rei e lhe dava a recompensa da satisfação de estar vivo, de ter sobrevivido. Aos domingos sentia a sofreguidão da segunda-feira: mais uma corrida pela frente. Sempre chegava ao fim, mas nunca parecia ter vitórias. Já estava se sufocando.

Não podia mais ler porque não havia tempo para isso. Não podia se alimentar com adequação porque não havia tempo para isso. Morava na cidade grande, com todas as grandiosidades que não podia usar por falta de tempo. Subjugado pelo tempo, acumulava a rotina de trabalho-apartamento-dormir-trabalho. Sentia-se com alguma riqueza pelo carro que terminara de pagar: um sufoco daqueles. Vivia sozinho e decidira que assim seria, ou foi o tempo, pouco a pouco, que não lhe oportunizou contatos e acalentos e carinhos.

Mais uma manhã e seguiu sua rotina de todos os dias acumulada de pressão e pressa. Ligou o carro, saiu triunfante pelas ruas e, no lugar de sempre estava a lhe esperar o engarrafamento de sempre. Vivia de engarrafamentos pelo trânsito e garrafas nas sextas-feiras. Mas aquele dia foi diferente: um avião havia sido atraído pela gravidade e tentou, por forças naturais, chegar ao centro do Planeta oval, quase redondo. Nenhum sobrevivente. Incêndios, sirenes, ambulâncias, luzes ferozes, barulhos de todos os lados, espantos de todos os lados. Todos parados. O incêndio impediu qualquer fuga. Estavam presos, sem poder sair do lugar, todos, milhares, cada um em seu automóvel sem qualquer movimento. Oleg pensou o que todos, sem equívocos pensaram: o carro é o refúgio seguro.

No mesmo dia, numa floresta distante dali, um avião teve o mesmo prenúncio: não conseguiu vencer sua luta contra a gravidade, arrebentou-se em copas de árvores e deslizou ligeiramente ...

Já tem cadastro? Clique aqui

Quer ler notícias de graça no DIARINHO?
Faça seu cadastro e tenha
10 acessos mensais

Ou assine o DIARINHO agora
e tenha acesso ilimitado!

Não podia mais ler porque não havia tempo para isso. Não podia se alimentar com adequação porque não havia tempo para isso. Morava na cidade grande, com todas as grandiosidades que não podia usar por falta de tempo. Subjugado pelo tempo, acumulava a rotina de trabalho-apartamento-dormir-trabalho. Sentia-se com alguma riqueza pelo carro que terminara de pagar: um sufoco daqueles. Vivia sozinho e decidira que assim seria, ou foi o tempo, pouco a pouco, que não lhe oportunizou contatos e acalentos e carinhos.

Mais uma manhã e seguiu sua rotina de todos os dias acumulada de pressão e pressa. Ligou o carro, saiu triunfante pelas ruas e, no lugar de sempre estava a lhe esperar o engarrafamento de sempre. Vivia de engarrafamentos pelo trânsito e garrafas nas sextas-feiras. Mas aquele dia foi diferente: um avião havia sido atraído pela gravidade e tentou, por forças naturais, chegar ao centro do Planeta oval, quase redondo. Nenhum sobrevivente. Incêndios, sirenes, ambulâncias, luzes ferozes, barulhos de todos os lados, espantos de todos os lados. Todos parados. O incêndio impediu qualquer fuga. Estavam presos, sem poder sair do lugar, todos, milhares, cada um em seu automóvel sem qualquer movimento. Oleg pensou o que todos, sem equívocos pensaram: o carro é o refúgio seguro.

No mesmo dia, numa floresta distante dali, um avião teve o mesmo prenúncio: não conseguiu vencer sua luta contra a gravidade, arrebentou-se em copas de árvores e deslizou ligeiramente até o chão. Três adultos não conseguiram suportar tantos ossos quebrados, artérias inchadas, pulmões enrijecidos. Quatro crianças sobreviveram. Assustadas, com medo, com dores, com a alma partida pela ausência da voz ativa dos adultos, se afastaram do aeroplano. Sentaram-se e procuraram comida e água. A floresta era o refúgio: ali haveria tudo que precisariam. Entenderam o mundo que se dava ao seu redor e, com desespero contido, se abraçaram, se protegeram e choraram!

As crianças conseguiram entender o funcionamento da vida na floresta pela sabedoria de seus pais e avós. Tudo o que aprenderam dizia que deviam entender e, depois, usar e preservar as coisas que tinham em sua volta. A floresta não era nem má, nem boa. Era necessário saber viver em paz com as dificuldades, evitar a violência e se integrar ao mundo maior que nos faz vivos. Depois de uma quarentena foram encontradas em boas condições, com vivacidade. O frio era o pior obstáculos, mas souberam se proteger. Cresceram e se formaram em Arqueologia.

Na cidade grande, tempos depois, arqueólogos descobriram uma civilização que sepultara homens e mulheres dentro de seus carros. Cada automóvel, um cadáver. Era difícil compreender porque uma civilização que se considerava tão desenvolvida corteja o fim de etapas da existência em funerais de trânsito. Oleg estava entre os mortos!

Os arqueólogos concluíram que os indivíduos daquela civilização se organizavam para atrair riquezas e se prover de hierarquias. Violências, intrigas, acusações, medos, os afastavam do carinho e do amor, da solidariedade e da comunhão. Viviam como morreram: sozinhos, engarrafados, em sepulcros metálicos, sem ninguém para lhe dar a mão.


Conteúdo Patrocinado


Comentários:

Deixe um comentário:

Somente usuários cadastrados podem postar comentários.

Para fazer seu cadastro, clique aqui.

Se você já é cadastrado, faça login para comentar.

ENQUETE

O que você acha do carnaval de Itajaí sair do Mercado Público?



Hoje nas bancas

Confira a capa de hoje
Folheie o jornal aqui ❯


Especiais

Militares apontam grupos armados e pressão migratória como riscos para o Brasil

Venezuela

Militares apontam grupos armados e pressão migratória como riscos para o Brasil

Trump usa imagens de ação na Venezuela para recados políticos e controle narrativo

Venezuela

Trump usa imagens de ação na Venezuela para recados políticos e controle narrativo

Como crise ambiental fez governos e empresas sentarem no banco dos réus

Justiça climática

Como crise ambiental fez governos e empresas sentarem no banco dos réus

A ditadura e o poder civil exibidos ao mundo por "O Agente Secreto"

Além do Globo de Ouro

A ditadura e o poder civil exibidos ao mundo por "O Agente Secreto"

Neste verão, tem maconha argentina queimando legalmente no Brasil

MARIJUANA

Neste verão, tem maconha argentina queimando legalmente no Brasil



Colunistas

Robison vai coordenar campanha de Jorginho

JotaCê

Robison vai coordenar campanha de Jorginho

Compra de material escolar

Charge do Dia

Compra de material escolar

Onde a vida mora

Clique diário

Onde a vida mora

No dia 22, Jorginho fecha parceria com o Novo e isola MDB

Coluna Acontece SC

No dia 22, Jorginho fecha parceria com o Novo e isola MDB

Beleza que machuca

Via Streaming

Beleza que machuca




Blogs

O verão por conta própria

VersoLuz

O verão por conta própria

✅ O que está roubando sua energia hoje

Espaço Saúde

✅ O que está roubando sua energia hoje

O retorno dos heróis

Blog do JC

O retorno dos heróis



Podcasts

Prefeitura de BC explica aumento do IPTU

 Prefeitura de BC explica aumento do IPTU

Publicado 22/01/2026 18:40





Jornal Diarinho ©2025 - Todos os direitos reservados.