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A escravidão do pensamento


Oleg estava sentado, diante de sua trajetória lembrada por Voane, seu amigo. Oleg era metódico, sistemático, acreditava que para tudo havia uma ordem de existência. Ordem que acontecia longe dos olhos humanos, longe da experiência do tato. Para Oleg o suor era uma experiência suficiente para explicar que o cérebro comanda as pulsações e as seivas sociais do indivíduo. Voane era uma personagem volátil, que se movia se ajustando ao ambiente, corrompendo sua lisura ética, a se vingar daqueles que pudessem ter algum sucesso ou reconhecimento. Voane pulsava o coração com energia de inveja e se alojava ao meio como camaleão repete a cor predominante.

Oleg iniciou sua repulsa: “Era um tempo que o próprio Tempo não esquece.” Estava lá marcado em pedras e ossos. Tempo ainda capaz de ser retido na memória e na costura mal feita na pele. Havia uma cicatriz abaixo do lábio assumida quando ia ao trabalho e, detido por bloqueio de manifestantes inacessíveis ao argumento institucional e condicionante, registrara o tempo em sua face. Período das mais perversas experiências humanas, quando corpo e cabeça eram separados. Havia “ruptura sensorial”.

As cabeças das pessoas eram raptadas pelos “Condutores” e levadas para “Casas de Pensamentos” tão estranhamente presentes, mas sem endereço fixo. Lá, nas “Casas de Pensamentos”, eram instaladas “Projeções de Realidade”, requeridas para que o cérebro não pudesse mais pensar seus próprios pensamentos. Em poucas horas os incautos vagantes dopados, os “Slavos”, já não conseguiriam realizar operações matemáticas simples, não alcançariam sua condição de autonomia e independência regulada nos genes quando zigoto. Os “Slavos” assumiam como verdade coisas que não existiam ou que tinham a existência alterada para que a conclusão fosse adversa da origem, os “Líquidos News”.

Voane estava atento e apreensivo ao relato. “As cabeças raptadas eram colocadas em plataformas e cilindros que continham os “Líquidos News” em vapor”. Esses “Líquidos News” transitavam ...

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Oleg iniciou sua repulsa: “Era um tempo que o próprio Tempo não esquece.” Estava lá marcado em pedras e ossos. Tempo ainda capaz de ser retido na memória e na costura mal feita na pele. Havia uma cicatriz abaixo do lábio assumida quando ia ao trabalho e, detido por bloqueio de manifestantes inacessíveis ao argumento institucional e condicionante, registrara o tempo em sua face. Período das mais perversas experiências humanas, quando corpo e cabeça eram separados. Havia “ruptura sensorial”.

As cabeças das pessoas eram raptadas pelos “Condutores” e levadas para “Casas de Pensamentos” tão estranhamente presentes, mas sem endereço fixo. Lá, nas “Casas de Pensamentos”, eram instaladas “Projeções de Realidade”, requeridas para que o cérebro não pudesse mais pensar seus próprios pensamentos. Em poucas horas os incautos vagantes dopados, os “Slavos”, já não conseguiriam realizar operações matemáticas simples, não alcançariam sua condição de autonomia e independência regulada nos genes quando zigoto. Os “Slavos” assumiam como verdade coisas que não existiam ou que tinham a existência alterada para que a conclusão fosse adversa da origem, os “Líquidos News”.

Voane estava atento e apreensivo ao relato. “As cabeças raptadas eram colocadas em plataformas e cilindros que continham os “Líquidos News” em vapor”. Esses “Líquidos News” transitavam pelo ar, chegavam em telas de diversos tamanhos e se alojavam no córtex e no núcleo cerebrais, e se dissolviam como vapor em todos os quatros lobos cerebrais.

Qualquer coisa, ou valor, ou sentimento e ou pensamento e mesmo a retina, em todos os cones e bastonetes, eram afetados pelos “Líquidos News”. Como uma porção de bruxaria, cada cabeça raptada se transformava em um “Slavo”. Cada um deles trazia na nuca as marcas da “ruptura sensorial”. E cada sensor cerebral dos “Slavos” sentia o que os “Condutores” programavam nas “Casas de Pensamentos”. A programação dos “Condutores” poderia vir pelo silêncio contínuo e duradouro ou pela repetição multiplicada de uma mensagem. Mensagens inconclusas e incertas poderiam ser tomadas como água no deserto.

Voane tinha marcas na nuca. Resistia à dor e à queimação. Fora considerado ilegítimo e listado para ter sua reputação queimada em Inquisição Medieval. Os “Slavos” foram programados para resistir ao que os “Condutores” consideravam defasagem e derrota. Embora tudo estivesse em conformidade com as regras do jogo jogado, era necessário causar “resistência” para que, em tempos a vir, os heróis pudessem voltar ao trono.

Voane fingia resistir, em vão, à tentação de se considerar importante e superior. Lembrava quando, longe dali, fizera juras pela Democracia, enquanto impunha aos outros seus valores pessoais de “Liberdade”. Como lâmina de canivete a brilhar sua ponta no glóbulo ocular de sua vítima. Oleg, com frieza congelante, mãos trêmulas pelo passar dos natais, recorria à autonomia de seu pensamento: “ninguém pode ser livre ao manter escravos”. Ninguém pode declarar a defesa da liberdade interrompendo o fluxo social da vida. Voane chorava, envergonhado, como alguém que, depois de tantos invernos, não poderia se perdoar pela infelicidade causada aos que dizia amar.

A maioria dos “Slavos” ainda caminhava nas ruas sem cabeça, tateavam o ar com mãos cegas, sob comando visceral dos “Condutores”. Voane, querendo voar, se dissolveu na névoa. Oleg se petrificou como gelo para perdurar.


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