Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 21/01/2026 11:13
Há autoras que não escrevem apenas literatura.
Elas escrevem história, memória e reparação.
Conhecer a obra de Conceição Evaristo é compreender uma das vozes mais potentes e necessárias da literatura brasileira contemporânea. Nascida em 29 de novembro de 1946, em Belo Horizonte (MG), mulher negra e de origem humilde, Conceição viveu na pele as desigualdades que mais tarde transformaria em linguagem literária.
Antes de se tornar referência acadêmica e literária, trabalhou como empregada doméstica. Formou-se em Letras pela UFRJ, onde também concluiu mestrado e doutorado em Literatura. Essa trajetória não é detalhe biográfico — ela é matéria viva da sua escrita.
Conceição Evaristo criou o conceito de escrevivência, uma escrita que nasce da experiência, do corpo, da memória ancestral e da coletividade. Sua literatura não fala sobre mulheres negras: ela fala a partir delas. E isso muda tudo.
Autora de obras fundamentais como Ponciá Vicêncio (2003), Becos da memória (2006) e Olhos d’água (2014), foi vencedora do Prêmio Jabuti em 2015 e recebeu inúmeros reconhecimentos, entre eles o Prêmio Juca Pato – Intelectual do Ano (2023) e o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (2024) pelo conjunto da obra — sendo, em ambos os casos, a primeira mulher negra a alcançar essas distinções. Em 2024, também foi eleita para a Academia Mineira de Letras, outro marco histórico.
O poema “Vozes-Mulheres” é uma síntese poderosa de sua obra. Nele, Conceição constrói uma genealogia de vozes femininas negras que atravessam o tempo, da escravidão ao presente, transformando silêncio em consciência.
O poema diz assim:
⸻
Vozes-Mulheres
Conceição Evaristo
A voz de minha bisavó
ecoou criança
nos porões do navio.
ecoou lamentos
de uma infância perdida.
A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.
A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.
A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
e
fome.
A voz de minha filha
recolhe todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.
A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem – o hoje – o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.
⸻
Esse poema não é apenas memória familiar.
Ele é retrato do Brasil.
Cada voz carrega uma camada de opressão histórica — mas também de resistência. O poema não encerra no trauma: ele aponta para a transformação, para a possibilidade de que a fala vire ação.
A voz da filha não apaga as vozes anteriores.
Ela as reúne.
E faz delas força.
Ler Conceição Evaristo é entender que a literatura pode ser território de luta, afeto e reconstrução.
E ouvir essas vozes é um gesto mínimo — mas urgente.
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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