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Quando o amor adoece: a violência contra a mulher e as marcas invisíveis


Quando o amor adoece: a violência contra a mulher e as marcas invisíveis

Na última semana, mais um caso brutal chocou o país: uma jovem quase perdeu a vida após ser agredida com 61 socos pelo próprio namorado. A violência só veio à tona porque o espancamento foi registrado pelas câmeras de um elevador. O agressor foi preso e alegou um “surto”. A vítima, além das fraturas no rosto, agora precisa lidar com um trauma que não aparece nas imagens: o psicológico.

Infelizmente, histórias como essa não são exceções. No Brasil, uma mulher é vítima de agressão física a cada 4 minutos, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. E a maioria dessas agressões acontece dentro de casa, cometida por parceiros ou ex-parceiros, pessoas que, em algum momento, disseram amar.

Como psicóloga clínica, é impossível não pensar nas cicatrizes emocionais que esse tipo de violência deixa. A dor física pode ser tratada com cirurgias e medicamentos. Mas e as feridas da alma? A autoestima despedaçada, o medo constante, a culpa injustamente internalizada, o sentimento de vergonha e isolamento. Esses sintomas, muitas vezes, evoluem para quadros de ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático e, em alguns casos, até ideação suicida.

É essencial lembrar que violência não começa com o tapa. Começa com o controle, com a desvalorização disfarçada de “preocupação”, com o isolamento da vítima dos amigos, da família, da própria identidade. O ciclo da violência é sutil no começo e quando a mulher percebe, muitas vezes já está emocionalmente refém, com sua saúde mental profundamente abalada.

A psicologia tem um papel fundamental tanto na prevenção quanto no cuidado com essas vítimas. Acolher, escutar sem julgamento, fortalecer a autonomia e a autoconfiança da mulher são passos importantes para sua reconstrução emocional. Mas o trabalho não é apenas clínico. É também social, educacional e político.

É urgente que toda a sociedade e o judiciário se envolvam nessas causas. Não basta apenas apontar o dedo quando um caso ganha repercussão. Precisamos cultivar empatia, desconstruir comportamentos abusivos que ainda são naturalizados e fortalecer políticas públicas que garantam proteção e apoio psicológico às vítimas. A rede de enfrentamento à violência começa nas conversas em casa, nas escolas, nos consultórios, nas delegacias, e se estende até os espaços de poder.

Falar sobre saúde mental é também falar sobre segurança, dignidade e direitos humanos. Precisamos garantir que toda mulher saiba que não está sozinha, que existem redes de apoio, serviços especializados, e que procurar ajuda é um ato de coragem, não de fraqueza.

Que o caso, a dor dessa jovem e de tantas outras não seja apenas mais uma estatística. Que possamos transformar indignação em ação. E que, um dia, possamos viver em uma sociedade onde o amor não machuca, não controla, não mata. Cuide da sua saúde mental. E, se você está vivendo algo parecido, procure ajuda. Sempre há uma saída.


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