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Escultura Santa Ceia de Ervin C. Teichmann, prevista para a Igreja Matriz, está sendo oferecida a Itajaí pelo filho do escultor


Pe. Eder Claudio Celva

Numa pesquisa no acervo do Museu Ervin Curt Teichmann em Pomerode no dia 1º de outubro de 2022, ao me despedir do Sr. Arno Teichmann, filho do escultor,  interpelou-me: Itajaí não quer comprar a Santa Ceia da sua Igreja Matriz? Pretende ele vender todo acervo para a Prefeitura de Pomerode, sendo que a Santa Ceia, no seu abalizado parecer, deveria ser antes oferecida para Itajaí. Na reunião de 10 de novembro de 2022, com a Comissão do bicentenário de catolicismo e pró-diocese de Itajaí, explicitei a questão e a importância de Itajaí ao menos propor uma negociação ao Sr. Teichmann. Apesar do valor que pedirá pela escultura, deve-se abrir a questão, pois desde 1965 ela não tinha preço, agora, e somente agora, estaria disposto a negociar. 

Mas, para que se saiba do que se trata, descreverei em linhas resumidas sua importância e significado.

A escultura Santa Ceia foi encomendada por Pe. Vendelino em 1954, junto ao escultor Ervin Curt Teichmann de Pomerode. Fora esculpida para compor a parte artística da Igreja Matriz, ocuparia lugar destacado sobre a porta principal. Estaria vinculada com a Rosácea, na parte superior da fachada. A Santa Ceia é o memorial da instituição, a rosácea é a celebração deste mistério pela Igreja pelos tempos afora.

O trabalho do escultor fora de cinco anos entre estudos e entalhamento. Fora a obra, que pôde maturar as vistas do escultor, pois nenhuma outra lhe custara tanto de estudos e trabalho, burilando-a com os benefícios do tempo, da experiência, da reflexão. É por isso que a considerara de tantos trabalhos que fizera – vários podem ser vistos no museu a ele dedicado em Pomerode – SC – sua obra prima.

O principal de seu valor não é somente o da peça em si. Não tem para Itajaí apenas um valor monetário das custas de uma obra desse quilate. Para Itajaí o valor é muito maior: é sentimental, histórico, artístico, catequético. Trata-se principalmente da composição original do que foi previsto, encomendado e realizado com finalidade específica.

O trabalho foi sendo executado em pranchas unidas no formato do tímpano da porta. A madeira é cedro, fornecida pela paróquia. Fora encomendada juntamente com a escultura de Moisés. Estavam ambas previstas para a inauguração em 1955, contudo não houve tempo hábil. Deu-se prioridade ao Moisés, que ficou pronto em junho de 1956. A quatro meses, da consagração da igreja  - em 15 de novembro de 1956 - seria impossível fazer a Santa Ceia. Passando esta solenidade não mais se delimitou data para término da escultura. Este tempo sem prazos terá a vantagem de uma obra muito cuidadosamente estudada e a “desvantagem”, de ir se agradando tanto a ponto de não mais querer entregá-la à paróquia conforme as negociações quando da encomenda.

Observemos algumas referências no epistolário do escultor. Em 17 de fevereiro de 1957, Teichmann escreve a Hans Steiner: Tenho muito trabalho na fábrica e a Santa Ceia em consequência avança bem devagar, além disso, tenho, no terceiro Congresso Brasileiro de Cerâmica, uma palestra sobre as Formas Perenes, ante um grupo de cientistas, professores de química, física, e técnicos bem como diretores da indústria cerâmica de todo Brasil.

Nas cartas íntimas ao amigo, não tem por finalidade descrever a simbologia da obra, mas somente faz a ela referências breves, mesmo assim, trazem boas informações. Em 2 de fevereiro do ano seguinte – 1958: Caro Steiner, meus agradecimentos pelo convite para visitar a terra do Tenório Cavalcanti (Político Carioca), infelizmente não consegui mais escrever antes da minha viagem a São Paulo, e vocês com certeza estavam esperando uma resposta para saber se eu viria; mas não foi possível, pois, as minhas coisas aqui estão muito atrasadas, a estada em São Paulo também me custou tempo, eu quero finalmente tirar a Santa Ceia grande do meu Ateliê, para poder fazer trabalhos menores para mim.

Noutra carta de Teichmann, de 29 de março de 1959, a Hans Steiner, afirma: Quando eu voltei do Rio, voltei novamente a trabalhar na Ceia e quero quando minha oficina estiver livre, terminar tudo. Quando eu estiver com a Ceia pronta, quero novamente retomar meu trabalho com madeira, de maneira que os cavacos voem e que as formas no Espírito da imaginação, fiquem na sua forma material, do jeito parecido com o ideal.

Assim, cinco anos se passaram... No primeiro de junho de 1959, escreveu a Steiner dando notícias de seu término e dos votos que fazia para padre Vendelino, não mais interessar-se por ela ou, interessando-se, não ser exatamente do seu agrado: Mais uma vez estou trabalhando na minha Santa Ceia, está quase pronta, eu ficaria feliz se o padre Vendelino não a fosse levar. Eu poderia colocar na minha sala de jantar. É difícil eu me separar dela. Cinco anos trabalhei nela e há mais de três anos no trabalho da madeira, está praticamente pronta, mas quando vejo nos livros sobre o acontecimento e dos participantes, sempre tinha alguma coisa para mudar. Uma vez o São João estava muito velho, depois muito sensível, assim como ele sempre é mostrado nestas ocasiões. Então li que Jesus apelidava os irmãos João e Jacó de Trovoada, ou coisa parecida, que indica Energia e impulsivo. Assim aconteceu comigo até agora, então acredito que aquilo que eu quis mostrar nesta obra, está terminado.

Ele, que poucas vezes estava tão satisfeito diante de uma obra sua  havia atingido o que era difícil para um artista: executar o que pretendera, imaginara, sonhara... Minha Santa Ceia finalmente está pronta, me custou alguns anos de trabalho, mas estou contente, porque ficou assim como eu tinha imaginado pelos livros que eu tinha à minha disposição, para me orientar sobre o tipo de pessoas a caracterizar.

Em 9 de julho 1959 - pelas pesquisas nas cartas - ele a considerou pronta, contudo não comunicou imediatamente de sua finalização. E a paróquia não demandou por não mais ser o pároco aquele que a encomendara... Passaram-se então outros cinco anos (1960-1965) de silêncios mútuos: paróquia e Teichmann. Em 1965 monsenhor Vendelino voltou como pároco da Paróquia Santíssimo Sacramento e foi ao encalço de sua Santa Ceia. Acontece que o artista, acabada a obra, considerou-a como sua obra-prima e não mais a entregou a sua finalidade original. Teria dito ao Pe. Vendelino Hobold: – Pode me pedir um braço, que eu dou, mas não me peça a minha Ceia!

Havia se tornado uma aquisição “impossível”. E outro motivo, talvez não menor foi o que captamos da entrevista do filho do artista, Sr. Arno Teichmann: haver caducado o preço combinado na encomenda, em 1954. O valor agora sobrepujaria algumas vezes o tratado, ainda porque não mais contava com o dinheiro de sua venda no seu orçamento, pois vale aqui o adágio: “quando não se quer vender, se pede o que não pode valer”.

Uma teologia para a escultura

Muito importante a reunir estes quesitos são inspirações e etapas do trabalho do artista que pretendemos relatar. Segundo o filho do escultor, Arno Teichmann, além das orientações de padre Vendelino, ele recorda-se de uma visita dos freis do colégio São Antônio de Blumenau – que costumavam visitar Teichmann – em que Frei Ernesto Emmendoerfer – OFM, especialmente aprofundou significados da Última Ceia de Jesus.

Eis algumas explicações da obra de arte. A teologia é bíblica, especialmente do evangelho de João no capítulo 6.

Depois Jesus afirma que este pão será sua carne. “Os judeus discutiam entre si: como é que ele pode dar sua carne a comer? Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois minha carne é verdadeira comida e meu sangue é verdadeira bebida. Quem se alimenta com minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele. Pois como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo por meio do Pai, assim aquele que de mim se alimenta viverá por meio de mim [...] Jesus falou estas coisas ensinando na sinagoga de Cafarnaum. Muitos discípulos que ouviram disseram então: Esta palavra é dura. Quem a pode ouvir? Percebendo que seus discípulos estavam murmurando por causa disso, Jesus perguntou: Isso vos escandaliza? Que será, então, quando virdes o Filho do Homem subir para onde estava antes? [...] A partir daquele momento, muitos discípulos o abandonaram e não mais andavam com ele. Jesus disse aos doze: “Vós também quereis ir embora?” Simão Pedro respondeu: A quem iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus. (Jo 6, 51- 69)

Logo nasce na comunidade uma crise. Como um homem pode falar isso, ainda mais este Jesus, cujos pais se conhecia? Que sinais Jesus realizava para que pudessem nele crer? E Jesus se apresenta como pão que desce do céu, o pão da vida. E falando Dele mesmo, diante dos murmuradores, apresenta: “Aqui está o pão que desce do céu, para que não morra quem dele comer”.

Foi na Ceia, que a situação se esclarece, com a instituição da Eucaristia. Quando Ele na Ceia diz, mostrando o pão: isto é meu Corpo; e com o vinho: isto é meu sangue, a comunidade se transfigurou. O contexto é o do lava-pés do Servo sofredor, do servo servidor. Este é meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos. Pois é a Eucaristia o mandamento novo: Eu vos dou um novo mandamento, que vos ameis uns aos outros assim como eu vos amei!

Consegue-se sair do sentido literal, de que ia se matar, ou precisaria ser morto, para que se aproveitassem de sua carne para alimento, uma espécie de antropofagia. Nasce nos apóstolos uma situação de alívio e entendimento. A escultura retrata justamente isso: a comunidade apostólica que agora compreende e coopera. Jesus está para partir, é Quinta-feira Santa. É pela instituição da Eucaristia que o reconhecem e passariam a reconhecê-lo até os séculos sem fim. A Igreja que no tempo faz o que Ele fez – Fazei isto em Memória de mim! Faz o que Ele ensinou: ide a todos os povos. Então a Igreja perpetua a vida de Cristo pela Eucaristia, que na Última Ceia, ou Santa Ceia, como se convencionou chamar, Jesus instituiu. Eucaristia, a fonte e o ápice de tudo o que se vive e viverá na Igreja. A Santa Ceia inaugura o que a Rosácea na plenitude celebra, o Mistério Pascal.

Só Judas Iscariotes é de um modelo vivo, inclusive de um conhecido de Ervin com aspectos de brucutu: Cabelo comprido em desalinho, sem bom asseio. E este serviu de modelo vivo. Na escultura vemos nitidamente que Judas é o único que não participa desta santidade. Seu rosto embrutecido não contempla o Senhor, nem mesmo a mesa com o pão e o vinho, nem qualquer de seus irmãos. Está transtornado, pois conforme o evangelho de Lucas 22, 3: Satanás entrou nele...

Continua a escultura no lugar que em 1960, Teichmann lhe havia dado na sala de sua casa, depois de sua morte transformada em museu com várias obras do artista de Pomerode.


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