Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 30/01/2026 09:34
Alguns poemas não nascem para confortar.
Eles nascem para apontar um espaço.
Arquitetura do Silêncio surgiu de uma inquietação antiga: a percepção de que a violência nem sempre acontece em lugares óbvios. Muitas vezes, ela se instala em ambientes comuns, fechados, repetidos — corredores, quartos, casas, instituições. Lugares onde o silêncio não é ausência de som, mas estrutura.
Ao escrever esse poema, pensei no silêncio como algo construído. Não um acaso, não um vazio neutro, mas uma arquitetura pensada para esconder, abafar, proteger quem agride e desgastar quem sofre. Um silêncio cúmplice.
O corredor aparece e reaparece porque ele não é apenas um lugar físico. É um trajeto. Um espaço de passagem onde nada é visto por inteiro, onde tudo acontece fora do alcance do olhar. Escuro. Repetido. Familiar demais para causar espanto.
O poema é este:
Arquitetura do Silêncio
Por Alfa Bile
📍 Itajaí, 4 de dezembro de 2025
Corredor muito escuro.
Caminho sombrio,
cúmplice calado.
Os gritos morrem,
exaustos.
As paredes surdas
protegem,
mudas.
Chão marcado —
no escuro, camufladas
as marcas.
Voz calada.
Cinto afrouxado.
Corredor muito escuro.
Os gritos não explodem — morrem exaustos.
As paredes não reagem — protegem mudas.
O chão guarda marcas que o escuro insiste em esconder.
Não há cena explícita.
Não há descrição direta.
Porque, muitas vezes, é assim que a violência se sustenta: no não-dito, no abafado, no que todos percebem mas fingem não ver.
O poema fala menos do ato e mais do ambiente que o permite.
Ao final, o corredor retorna. Nada foi resolvido. Nada foi interrompido. A repetição é intencional — ela imita a permanência do silêncio quando ninguém o rompe.
Talvez escrever esse poema tenha sido uma forma de acender uma luz mínima nesse corredor. Não para explicar tudo, mas para nomear o espaço. E, às vezes, nomear já é um começo
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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