Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 29/01/2026 09:49
Algumas imagens não nos abandonam.
Elas voltam, insistem, atravessam o tempo e continuam pedindo silêncio.
A cena que me atravessou tantas vezes vem do documentário A Marcha dos Pinguins (La Marche de l’Empereur), dirigido pelo cineasta francês Luc Jacquet. O filme foi lançado em 2005 e ganhou o mundo nos anos seguintes, resultado de mais de um ano de filmagens na Antártida, em condições extremas, acompanhando o ciclo de vida dos pinguins-imperadores.
A produção contou com apoio científico do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica da França) e com biólogos especializados em comportamento animal, que acompanharam as filmagens e ajudaram a interpretar o que era visto — sempre com cautela.
Em meio a milhares de pinguins seguindo a rota ancestral entre o oceano e o local de reprodução, a câmera registra algo que foge completamente do esperado: um único pinguim se afasta do grupo.
Enquanto todos caminham juntos rumo ao interior gelado do continente, ele vira o corpo na direção oposta. Não corre. Não hesita. Apenas anda. Sozinho. Em linha reta. Para o branco absoluto.
Os cientistas foram claros: não havia ali um gesto “existencial” ou simbólico. A hipótese mais provável envolve desorientação, doença, estresse extremo, fadiga ou até cegueira temporária causada pela luz refletida no gelo. Em ambientes tão hostis, um pequeno desequilíbrio pode romper completamente o comportamento coletivo.
O termo “pinguim niilista” não vem da ciência.
Ele nasce depois, na internet.
A cena foi recortada, isolada do contexto, e passou a circular como símbolo de desistência, solidão e perda de sentido. Nós, humanos, projetamos ali nossas próprias angústias. Precisamos transformar o inexplicável em narrativa. Precisamos dar nome ao vazio.
Assisti a essa cena muitas vezes. E chorei muitas vezes. Não porque acreditasse que o pinguim “pensava” como nós, mas porque ali está exposta uma verdade dura: nem tudo na natureza tem sentido, propósito ou redenção. Às vezes, algo simplesmente sai da rota.
Foi desse atravessamento que nasceu este haikai contemporâneo:
⸻
Haikai Moderno 7
8 de janeiro de 2026
Alfa Bile
branco contínuo —
fora da rota
afastando
⸻
O branco não é metáfora elaborada. É cenário.
O verbo não conclui. Apenas indica movimento.
E talvez o ponto mais delicado dessa história esteja exatamente aqui: no limite entre a leitura poética e a responsabilidade científica.
A arte tem o direito — e até o dever — de acolher a dor do mundo. Mas ela caminha numa linha fina quando se aproxima de imagens reais de sofrimento. Existe uma diferença sutil entre dar sentido ao impacto e transformar a dor em espetáculo.
No caso do chamado “pinguim niilista”, a poesia nasce não porque a ciência falhou, mas porque a ciência se cala. Onde não há explicação definitiva, o humano projeta. A metáfora aparece como abrigo emocional, não como verdade factual.
O desafio ético do artista talvez seja esse: não apagar a realidade em nome da beleza, nem reduzir a beleza a uma mentira confortável. É possível escrever a partir da dor sem romantizá-la. É possível se emocionar sem distorcer. É possível olhar para o abismo sem inventar um herói onde só existe fragilidade.
Quando a arte respeita esse limite, ela não explica o mundo — ela o acompanha.
E, às vezes, acompanhar já é o máximo que se pode fazer.
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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Publicado 28/01/2026 18:05