Por Alfa Bile - alfabile@gmail.com
Fotógrafo, poeta e escritor. Autor do livro Lume, suas obras Fine Art já decoram hotéis como Hilton e Mercure. Publicado pela National Geographic e DJI Global @alfabile | @alfabilegaleria
Publicado 12/01/2026 09:27
A Falha Poética é um movimento poético que criei a partir daquilo que mais me interessa na escrita: o pensamento em estado bruto. Ela nasce do tropeço, da distração, da quebra de fluxo — da recusa em fingir que a mente humana é organizada, coerente e linear o tempo todo.
Na Falha Poética, o poema não vem depois da ideia.
Ele acontece junto com ela.
Este texto surge num dia aparentemente comum. Tudo funciona do lado de fora: compromissos, supermercado cheio, tarefas resolvidas, sacolas nas mãos. O mundo gira no automático.
Mas por dentro… nada acompanha.
Por dentro, a Bela Adormecida.
A escrita vai registrando o que acontece enquanto a atenção escapa. A mente viaja para lugares improváveis — Maldivas — enquanto o corpo executa o básico: comprar, andar, voltar. Existe uma felicidade estranha, quase deslocada, que não se sustenta direito.
O verso “não deveria ter acordado” não é um drama ensaiado. É ruído.
É aquele pensamento atravessado que aparece sem pedir permissão.
Chove. O corpo segue.
Nem tanto.
E então a falha se materializa.
O detalhe que escapa.
O objeto ausente.
A moto.
O poema não constrói clímax nem resolução. Ele falha junto com o pensamento. Retorna ao supermercado, repete a imagem, esquece o pão. Exatamente como a mente que insiste em voltar sempre um passo atrás.
Nada se explica.
Nada se conserta.
A Falha Poética nº 2 não busca beleza formal nem fechamento elegante. Ela assume o desencontro entre corpo e mente, entre presença e atenção. O erro não é corrigido — é registrado.
Abaixo, o poema como ocorreu:
⸻
Falha Poética nº 2
Alfa Bile
Itajaí, 30.12.2025
Dia agitado hoje.
Externamente.
Por dentro,
a Bela Adormecida.
Fui comprar algumas coisas.
Supermercado lotado.
Moto estacionada.
Minha mente?
Maldivas.
Volto pra casa feliz,
sacolas nas mãos.
Não deveria ter acordado.
Cai chuva
e sigo saltitante.
Nem tanto.
Em casa,
livro o peso dos braços.
Chave da moto no bolso.
Preciso pagar a internet.
Hoje não.
Da janela, um vazio.
Cadê a moto?
Supermercado lotado.
Acho que esqueci do pão.
⸻
A Falha Poética não pede atenção total.
Ela acontece apesar dela.
E segue.
📸 ✍️ Alfa Bile
VersoLuz | Jornal Diarinho
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Publicado 09/01/2026 19:10