PIONEIRISMO

Grupo que abriu portas da maçonaria para mulheres em SC celebra 15 anos em Itajaí

Movimento começou com três catarinenses que viajavam até Curitiba

Potência buscou apoio fora do país após rejeição de grupos tradicionais (Foto: Camila Diel)
Potência buscou apoio fora do país após rejeição de grupos tradicionais (Foto: Camila Diel)
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A Grande Loja Unida de Santa Catarina (GLUSC), sediada em Itajaí, completa 15 anos no dia 15 de dezembro e celebra ser a primeira potência maçônica mista do estado, com espaço igual para homens e mulheres. A instituição é comandada pelo Sereníssimo Grão-Mestre José Carlos Machado, maçom Grau 33, e por um conselho composto também por irmãs do mesmo grau, o mais alto da maçonaria no rito escocês.

A existência da potência ainda contrasta com o cenário tradicional. O Grande Oriente do Brasil (GOB), a mais antiga potência do país, não reconhece lojas mistas e as considera ilegítimas. Para não ficar isolada, a GLUSC foi atrás de reconhecimento externo e firmou acordos com 15 potências estrangeiras, entre elas instituições do Canadá, Chile, Portugal, Peru, Espanha e outros.

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Pra quem nunca teve contato com o universo maçônico, José Carlos Machado explica de forma simples: as lojas são como cidades, onde os maçons se reúnem e trabalham; as potências funcionam como estados, organizando várias lojas e garantindo regras e reconhecimento. A GLUSC é essa “potência-estado”, reunindo lojas em Itajaí, Chapecó e Pato Branco, com mais de 400 iniciados.

O Complexo Maçônico José Barbosa Machado, sede da GLUSC, abriga três templos — um deles a céu aberto, único em Santa Catarina e um dos três no país. Ali, o trabalho filosófico e simbólico se soma a ações sociais, feitas sem exposição.

A história da potência começou antes de 2010. José sempre frequentou lojas masculinas e cresceu nesse ambiente. A virada veio quando um grupo de mulheres de Itajaí decidiu entrar para a ordem. Entre elas estavam sua esposa, Sônia Regina Machado.

Como não havia espaço para mulheres no estado, a alternativa foi Curitiba. As viajantes de Itajaí faziam o trajeto quinzenalmente, primeiro em um carro, depois em dois e até precisarem de um micro-ônibus — deslocamento que rapidamente se tornou caro e cansativo. Para resolver a situação, o grupo criou uma loja mista em Itajaí por volta de 2002. O projeto cresceu, virou três lojas independentes e, em 2010, deu origem à GLUSC.

A maçonaria tradicional se apoia em textos antigos chamados landmarks. O mais polêmico é o landmark 18, que veta a iniciação de mulheres, pessoas negras e pessoas com deficiência — reflexo de normas do século 18. A GLUSC segue todos os “mandamentos”, menos esse. “Em pleno século 21, não dá para obedecer a um artigo como este. É inconstitucional. Trocamos esse trecho por um princípio baseado em índole e bons costumes”, afirma.

Professora curiosa

A curiosidade de Sônia pela maçonaria surgiu em sala de aula. Professora de História e casada com um maçom, ela sempre esbarrava nos livros: a ordem aparecia ligada a momentos importantes do país. “Os livros diziam que a maçonaria participou da Independência, da Abolição e da República, mas não explicavam como. Isso me deixava curiosa”, lembra.

Sônia buscou respostas com maçons conhecidos, mas sentia que as explicações paravam pela metade. O convite para ingressar numa loja mista em Curitiba veio no início dos anos 2000, quando ela fazia mestrado.

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Mesmo vindo da maçonaria masculina, José diz que não resistiu à entrada da esposa na maçonaria mista. Para ele, a opinião importante era a do pai, maçom antigo e respeitado — que apoiou a decisão e defendeu que a presença feminina só fortaleceria a ordem.

Mesmo com a rotina puxada, filhos pequenos e trabalho em Itajaí, Sônia aceitou. Foi iniciada em 2002. Na época, duas mulheres de Itajaí já faziam parte da loja, Nilce Carolina Colla Prando e Márcia Regina Molleri — atualmente, todas atingiram o almejado Grau 33. As três são pioneiras da maçonaria mista na região e as primeiras iniciadas da GLUSC.

Sônia reconhece que a presença feminina na maçonaria enfrenta barreiras no Brasil. “Ainda existe uma corrente que dificulta a entrada da mulher. Fora do Brasil isso já é natural”, diz. Para ela, incluir mulheres é fundamental. Sônia explica que, nas potências tradicionais, até existem grupos femininos, mas separados dos masculinos. Às mulheres costuma caber a parte de caridade, enquanto os homens ficam com o estudo filosófico — uma divisão limitada. “Eles não permitem que uma mulher assista à reunião de uma loja masculina”, afirma. Nas lojas mistas, homens e mulheres são vistos como iguais.

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Maçonaria em família

Ao explicar a principal motivação para enfrentar a resistência e criar uma potência mista, José Carlos responde com uma palavra: família. “Eu sou maçom, a minha esposa é maçom, meus filhos cresceram aqui dentro. Queríamos uma maçonaria que acolhesse a família inteira”, afirma.

Ele lembra que, em lojas masculinas, existem organizações juvenis ligadas à maçonaria, como os DeMolays para meninos e as Filhas de Jó para meninas. Para ele, o caminho das meninas costuma ficar sem continuidade dentro da maçonaria tradicional. “Os DeMolays amadurecem e seguem na vida maçônica. E as meninas vão para onde? Não há espaço. O principal motivo de criar isso aqui foi ter uma maçonaria que envolve a família”, afirma, “para nós, a família é o mais importante de tudo”.

Do preconceito ao reconhecimento internacional

A criação de uma potência mista não aconteceu sem conflitos. José Carlos relata que, na época da fundação, houve resistência de lojas masculinas que não reconheciam a legitimidade do grupo. Houve dificuldade pra encontrar espaço físico pros rituais. O complexo de Itajaí, com dois templos internos e um externo, nasceu a partir de muito investimento.

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Diante da dificuldade de integração com a maçonaria tradicional, a GLUSC buscou acordos internacionais. A potência mantém relações com organizações das Américas do Sul, Central e do Norte e com países da Europa por meio de entidades que representam grupos de potências mais liberais.

Mistério da maçonaria

Sobre o mistério que ainda envolve a maçonaria, José Carlos diz que boa parte disso ficou no passado. “Antes a maçonaria era velada. Hoje, com a internet, ela está praticamente aberta”, afirma. Ele explica que apenas os sinais e formas de reconhecimento entre maçons continuam reservados ao templo. Por tradição, a ordem não discute rituais com não-membros, o que alimentou teorias da conspiração.

No dia a dia, a GLUSC reúne encontros filosóficos, estudos e ações sociais feitas sem alarde. A proposta é fortalecer valores e formar pessoas mais éticas e conscientes. Sônia destaca que a maçonaria não é uma religião, mas se apoia em princípios presentes em várias tradições religiosas — sem vínculo com uma fé específica, embora a fé seja um pilar obrigatório.

Aos 15 anos, a potência equilibra tradição e mudança. Mantém ritos e símbolos antigos, mas interpreta o landmark 18 conforme a Constituição brasileira para permitir a entrada de mulheres e pessoas antes excluídas. Entre colunas e aventais, a aposta é seguir escrevendo essa história com a família inteira presente.



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