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Novas denúncias revelam condições de trabalho degradantes na Arteris Litoral Sul

Socorristas fazem apelo por melhorias enquanto Arteris e Med+ empurram a culpa uma pra outra

Após a primeira denúncia, bases foram pintadas às pressas, mas relatos de problemas se multiplicaram (Fotos: Leitor DIARINHO)
Após a primeira denúncia, bases foram pintadas às pressas, mas relatos de problemas se multiplicaram (Fotos: Leitor DIARINHO)

Duas semanas após a denúncia sobre a remoção das camas e infiltrações nos alojamentos da concessionária da BR 101 em Santa Catarina, pouca coisa mudou. Bases foram pintadas às pressas, mas, segundo os socorristas, só para “disfarçar” a situação. Os novos relatos, obtidos com exclusividade, apontam agravantes: ameaças de demissão a quem falou com a imprensa, reformas superficiais e jornadas exaustivas.

Cinco socorristas, quatro na ativa e um ex-funcionário, falaram com o DIARINHO sob a condição de preservação de seus nomes. Foram usados nomes fictícios: Fabiano, Natanael, Valdir, Luciano e Gilmar. Os relatos revelam medo, desgaste físico e mental, falta de estrutura, corte de direitos e desvalorização. 

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Medo de retaliação

Após a primeira matéria, o clima nas bases piorou. “Eles estão querendo achar [quem falou], que no caso sou eu! Foi falado que quem fez a denúncia vai ser mandado embora assim que eles descobrirem. Foi falado por gente lá de cima, verbalmente, e não deu tempo de gravar”, diz Luciano. Outros confirmaram a repressão e relataram perseguições da empresa.

Bases insalubres

A precariedade estrutural, tema da primeira denúncia, segue. A água chega a escorrer pela tomada. “Já reclamamos várias vezes com as gestões, mostramos vídeos, e até agora nada foi feito”, disse. Após a matéria, as bases foram pintadas. "Pintura, reforma, essas coisas", disse Valdir. Pros socorristas, foi só maquiagem. “O mofo continua por baixo e já tá descascando”, afirmou Fabiano.

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Ex-funcionário flagrou caminhão com materiais usados para dar uma
Ex-funcionário flagrou caminhão com materiais usados para dar uma "tapeada" no ambiente

 

Para os socorristas, foi só maquiagem. “É só pintura. O mofo continua por baixo, e já tá descascando”, afirmou Fabiano. Os problemas continuam em outras estações. Durante o verão, os socorristas tiveram que improvisar para aguentar o calor. “Ficamos de agosto a janeiro sem ar-condicionado. Levávamos ventiladores de casa”, completou. “Uniforme também foi um problema. A empresa parceira assumiu em abril e só agora começaram a entregar os novos", afirmou Natanael.

 

Troca de empresa e perda de direitos

Os problemas começaram com a troca da prestadora: em 1º de abril, a BR Vida deu lugar à empresa parceira. A mudança, antes vista com cautela, gerou frustração. A BR Vida era lembrada como defensora dos trabalhadores. “Tínhamos salário digno, benefícios sem desconto em folha, e as horas extras eram pagas junto com o salário. Dava gosto de trabalhar”, disse Valdir. “Hoje, com a empresa parceira, vamos trabalhar desanimados.”

A empresa parceira teria priorizado novos contratados com salários menores, ignorando a equipe antiga. “Eles não fizeram esforço nenhum pra manter a equipe antiga. E os que entraram, muitos já saíram. Não aguentaram”, disse Valdir. Segundo Natanael, a proposta de redução nos ganhos levou à debandada. “A equipe ficou muito desmotivada. Perdemos muito no salário e nos benefícios. A redução foi de cerca de 25% do que a gente ganhava antes.” Gilmar, que atuou em diversas bases, foi um dos que pediu desligamento após a mudança.

Jornadas exaustivas e risco à vida

A situação piorou após a retirada das camas nos alojamentos. Antes, as equipes se revezavam para descansar entre os atendimentos, principalmente os motoristas. Agora, segundo um dos trabalhadores, isso não é mais possível. Em bases com três socorristas, um ficava no rádio e os outros descansavam. Com a retirada da estrutura, dois precisam ficar acordados o tempo todo.

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Com a saída de profissionais, faltam equipes completas. Em alguns casos, a ambulância ficou sem operar. A sobrecarga virou rotina, principalmente nos fins de semana, quando os acidentes aumentam.

Muitos ainda acumulam jornada em outros empregos para complementar a renda. Um dos socorristas relata que a maioria dos colegas trabalha em dois lugares, pois o salário atual não cobre o custo de vida.

Desvio de função

Socorristas dizem estar executando funções que não são da ambulância. “A gente vira guincho, junta animal morto, faz final de fila. Isso não é função de ambulância”, disse Luciano. Valdir alerta para o risco: “Botam a gente pra fazer final de fila em curva, à noite. Isso bota nossa vida em risco.” Segundo eles, a justificativa da empresa é que essas tarefas são exigência da licitação. “A gente se sente desvalorizado.”

Trabalhadores relatam pausas registradas no ponto eletrônico mesmo durante atendimentos. “O sistema bate ponto de intervalo entre 21h e 22h. Às vezes a equipe tá numa parada cardiorrespiratória e no ponto tá em horário de janta”, disse Fabiano. Gilmar afirmou que esse tipo de controle se tornou padrão com a nova gestão. Gilmar relata que os gestores justificavam as pausas automáticas alegando que havia “muito tempo livre”, mesmo durante ocorrências graves.

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Luciano reforça que, mesmo em horários de almoço marcados no sistema, todos continuam de sobreaviso. “Se for acionado, a gente não recebe essa hora.”

Quando a vocação não segura mais

A falta de estrutura, o cansaço acumulado, a sobrecarga emocional e a sensação de abandono têm levado muitos profissionais ao limite. Alguns já deixaram a função. Outros pensam seriamente em fazer o mesmo.

Fabiano foi um dos que decidiu sair ao perceber que nada havia mudado desde a primeira denúncia. “Entrei com pedido de desligamento por rescisão indireta, com auxílio de um advogado.”

Gilmar, que atuou em várias bases da Litoral Sul, também pediu para sair após anos no resgate rodoviário. “Torço pra que as coisas melhorem. A gente gostava do trabalho, gosta do que faz”, afirmou.

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Empresas se posicionam

Empresa parceira + afirma seguir a lei, nega irregularidades e diz que denúncias são pontuais

A empresa parceira diz atuar conforme a legislação, desconhecer irregularidades graves e tratar as denúncias como pontuais, sob apuração. A empresa afirma seguir a convenção coletiva da categoria e que as contratações respeitam a CLT. O ponto eletrônico seria operado pelos funcionários e os intervalos, registrados legalmente, superariam o mínimo exigido.

A responsabilidade pelas instalações, segundo a empresa parceira, é da concessionária. Ainda assim, a empresa diz acompanhar as condições das bases e desconhecer falhas que comprometam a dignidade dos profissionais.

Sobre denúncias de retaliação, afirma não ter recebido orientações da concessionária para punir funcionários. Diz ainda manter canal de ouvidoria sigiloso. Reconhecendo o impacto da mudança de gestão, a empresa parceira afirma manter políticas de valorização e receber mais de 1200 currículos por mês.

Posicionamento da concessionária 

A concessionária nega que tenha solicitado qualquer punição ou demissão de funcionários da empresa parceira. Diz repudiar retaliações e manter canal de denúncias independente.

Segundo a concessionária, as bases seguem a Portaria 2.048/2002 do Ministério da Saúde, que não exige camas. Mesmo assim, afirma manter estrutura superior à exigida: uma cama por ambulância e outra para o médico, permitindo descanso escalonado.

A rotina interna dos alojamentos é responsabilidade da empresa parceira. As estruturas, segundo a empresa, passam por vistorias e manutenções regulares. A concessionária diz não interferir na gestão das prestadoras, contratadas por processo seletivo, e que as bases não são abertas à visitação. A empresa afirma seguir à disposição para esclarecimentos.






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