POLÍTICA INTERNACIONAL

Ovo político: mudança climática, inflação e vendas aos EUA fazem ovo virar desafio de Lula

Exportação de ovos brasileiros para os EUA quase dobrou em um ano, enquanto preço do alimento disparou nos dois países

Ilustração criada com auxílio de IA/Ed Wanderley/Agência Pública
Ilustração criada com auxílio de IA/Ed Wanderley/Agência Pública

Agência Pública | Por Guilherme Cavalcanti | Edição: Ed Wanderley

Recorrente nos discursos da oposição ao governo federal, o ovo é a bola da vez nas tentativas de influenciar a opinião pública, mas o alimento é um desafio que não se restringe ao Brasil. Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as exportações brasileiras de ovos para os Estados Unidos cresceram 93% em fevereiro em comparação com o mesmo mês do ano anterior. De acordo com o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Universidade de São Paulo (USP), a alta do preço nos mercados nacionais foi de 18,7%, considerando o impacto da inflação. 

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A alta também foi verificada nas prateleiras dos norte-americanos, mas a busca deles por produtores brasileiros pode influenciar os preços praticados. Para o doutor em ciências econômicas pela Absolute Christian University (ACU) Antonio Carvalho, a valorização pode seguir a lógica de oferta e demanda e um foco do setor no mercado externo pode contribuir no futuro desse cenário. 

“Quando você vende em dólar para o exterior, você arrecada muito mais do que vendendo aqui dentro. Você gera um certo desabastecimento”, explica Carvalho, ao lembrar a atual cotação do dólar norte-americano acima dos R$ 5,70. “Se eu vendo caro para fora, quem quer comprar aqui dentro, acaba tendo que pagar caro também. […] Aconteceu com a carne durante a pandemia. Depois, o preço deu uma leve recuada porque as exportações caíram um pouco, mas se mantiveram altas. Com o ovo, nunca tinha acontecido isso. O Brasil não era exportador de ovo. E aí, de repente, tem essa demanda”, explica.

A ABPA destaca que o ovo brasileiro se tornou mais competitivo no mercado internacional por atender aos critérios exigidos pelos países importadores, tanto em qualidade quanto em biossegurança. “O Brasil nunca registrou H5N1 [gripe aviária] em sua produção comercial, o que é um critério relevante para comércio internacional avícola, tanto para ovos quanto para carne de frango”, afirma a associação.

A entidade ressalta que as mudanças climáticas têm afetado a produção de ovos, “com reduções de níveis de produtividade em torno de 10%, frente aos impactos do calor nas aves”. Segundo especialistas ouvidos pela Agência Pública, o estresse térmico prejudica diretamente a postura das galinhas, e, em casos extremos, temperaturas acima dos 40°C podem levá-las à morte.

Brasil produz 3,6 milhões de toneladas de ovos por ano, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (Foto: Rodrigo Feliz Leal/arquivo AEN)
Brasil produz 3,6 milhões de toneladas de ovos por ano, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (Foto: Rodrigo Feliz Leal/arquivo AEN)

A solução made in mundo

No dia 6 de março, o governo Lula anunciou que o imposto de importação sobre carne, café, milho e outros produtos seria zerado para tentar conter a inflação dos alimentos. Para Carvalho, a medida pode beneficiar o consumidor no curto prazo, tornando os produtos mais acessíveis, porém a medida não deve levar ao barateamento dos ovos. 

“Qualquer produto que tem demanda internacional vai ter um aumento de preço dentro do país. E a forma de conter esse preço é, ou você reduz os custos, reduzindo o imposto, ou aumentando a produção. Mas o aumento de produção demora. Ele demanda estrutura, demanda investimento”, complementa Carvalho.

A ABPA, no entanto, minimiza o efeito do aumento das exportações na oferta de ovos no mercado nacional e estima que o abastecimento interno não deve ser comprometido. “O Brasil deverá produzir este ano 3,6 milhões de toneladas de ovos, enquanto a exportação esperada é de 35 mil toneladas.”

Presidente Lula já abordou a alta dos alimentos em discursos públicos e disse buscar explicação para o preço do ovo. “Uns dizem que é o calor, outros dizem que é a exportação, e eu estou atrás”, declarou logo após disparar: “Galinha não está cobrando caro” (Foto: Ricardo Stuckert)
Presidente Lula já abordou a alta dos alimentos em discursos públicos e disse buscar explicação para o preço do ovo. “Uns dizem que é o calor, outros dizem que é a exportação, e eu estou atrás”, declarou logo após disparar: “Galinha não está cobrando caro” (Foto: Ricardo Stuckert)

Crise de imagem econômica

Após ser declarado réu por tentativa de golpe contra o Estado, foi ao ovo que o ex-presidente Jair Bolsonaro recorreu para criticar a condução econômica do governo Lula, mencionando o aumento do preço do produto durante entrevista coletiva em frente ao gabinete do filho, o senador Flávio Bolsonaro.

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“A verdade dói, mas o povo entendeu que a verdade é necessária. ‘É picanha, de graça, cervejinha’. Não tem nem ovo agora. A inflação está aí. O povo não quer mais confusão. Por isso que eu falo em anistia”, afirmou o ex-presidente. 

Para o doutor em ciência política e professor da Universidade de Brasília (UnB) Wladimir Gramacho, a popularidade política depende da percepção popular sobre a economia – quando vai bem, governos são recompensados com aprovação e votos; quando vai mal, são punidos. 

“O embate político é um embate de discurso, choque constante, e eles precisam de insumos, seja um ovo, seja um acidente, uma enchente, seja um caso de corrupção, seja o que estiver acontecendo. O que estiver na mesa, eles usam para construir a narrativa política e para construir esse embate político”, afirma Gramacho.

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“É uma coisa que pesa no bolso e no estômago. Isso toca, e tem uma capacidade de mobilizar a classe política e todo mundo. No caso do Bolsonaro falando isso agora, é do jogo. Inclusive da suposta incapacidade do governo Lula [de controlar preços]”, afirma o cientista político André Pereira César.

 

 

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