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ENTREVISTA

Duda Salabert “Quando uma travesti é eleita, a sociedade inteira avança”

A candidata a deputada federal falou sobre as eleições de 2022 e a esperança de eleger pessoas trans pro Congresso Nacional

Redação DIARINHO [editores@diarinho.com.br]



Por Giulia Afiune

 

Em 2020, Duda foi eleita a primeira vereadora trans de Belo Horizonte (MG) com número recorde de votos para o cargo. Já na eleição de 2022, que ela considera “a mais importante da nossa geração”, está determinada a ajudar a eleger, pela primeira vez na história, pessoas travestis e transexuais para o Congresso Nacional. “Quando uma travesti é eleita, quando ela avança, a sociedade inteira avança, porque nós fazemos parte de um grupo que a expectativa de vida não supera 35 anos, que 90% tá na prostituição”, diz a vereadora, que nos últimos dias decidiu se candidatar a deputada federal em vez de senadora.



A luta para conquistar espaços em um país onde a LGBTfobia é estrutural requer coragem, pois é permeada por riscos e ameaças. Duda foi novamente ameaçada de morte em julho, pelo mesmo grupo neonazista que a atacou em 2021. Ela acredita que a eleição deste ano será a mais violenta da história e teme por sua segurança. “Não sei por quantas violências políticas eu vou passar, nem se vou sair viva desse processo”, desabafa.

Apesar disso, ela continua na disputa eleitoral e busca inspiração na literatura para seguir em frente. “A política também tem que ter poesia. A poesia é aquilo que toca, que emociona, aquilo que sensibiliza, é aquilo que faz você pedir voto.” Duda Salabert é professora de literatura, ambientalista e a primeira vereadora trans de Belo Horizonte

 


 

O Brasil teve um recorde de candidaturas trans na eleição de 2020, e é possível que tenhamos um número alto nas eleições deste ano. Por que houve o aumento?

Duda: Eu acho que são dois pontos. Essas candidaturas, primeiramente, são resultado de um processo histórico de luta e resistência do movimento de pessoas travestis e transexuais, não só no Brasil, mas na América Latina. A organização do movimento de pessoas travestis e transexuais nos últimos anos começa a gerar frutos agora nessas candidaturas, e em candidaturas com fôlego e musculatura para saírem vitoriosas. Uma outra questão é que nós estamos vivendo a maior crise econômica da história do capitalismo e, nesse contexto de crise, as pessoas mais vitimadas são as que estão em extrema vulnerabilidade social, onde estão inseridas justamente as pessoas travestis e transexuais. Nós fazemos parte de um grupo em que 90% está na prostituição — isso antes da pandemia. Com a pandemia, possivelmente esse cenário se agudizou. No contexto de crise, a política institucional é uma ferramenta fundamental e potente para a transformação. E essa crise econômica ainda carrega como recheio o governo fascista do Jair Bolsonaro [PL], o que obriga nós, pessoas LGBT, sobretudo travestis e transexuais, a ocupar espaços de poder na busca de tentar uma solução ou mitigar os danos em relação à necropolítica. Se nós fazemos parte de um grupo que 90% está na prostituição, nós nunca fomos pauta nem da esquerda, nem do centro, nem da direita. Sempre fomos nós por nós. Se nós não ocuparmos esses espaços, nós não vamos ter uma transformação no país.

Me chamou atenção a forte articulação entre essas candidaturas, inclusive com a criação da Frente Nacional TransPolítica em 2021 e com uma articulação para formar uma bancada de depuTRAVAS no Congresso Nacional. Como essa articulação funciona na prática?

Duda: A criação dessa frente nacional de parlamentares e lideranças trans — que o nosso mandato ajudou a construir e a pensar — tem o objetivo de colocar esses mandatos em diálogo a fim de dar mais força e mais visibilidade à nossa luta, e também ter um intercâmbio de políticas públicas que foram exitosas em algum mandato e podem ser replicadas em outro. Agora nós estamos fortalecendo essas candidaturas para que a gente tenha, pela primeira vez na história desse país, parlamentares trans e travestis no Congresso Nacional. E nós temos candidaturas que têm muita chance de estar no Congresso Nacional. Essa rede que a gente está construindo é para nos fortalecer, mas também para a gente construir um programa em comum entre essas lideranças. Nós entendemos que há partidos diferentes e até espectros políticos diferentes, mas nós temos pontos em comum. Por exemplo, é unânime entre pessoas travestis e transexuais criar políticas de empregabilidade para as pessoas trans, já que 90% de nós estão na prostituição. Pode ter divergência em relação a qual vai ser a ferramenta: eu, que faço parte do campo progressista, entendo que isso é papel do Estado, mas pode ser que alguma pessoa da direita, mais liberal, entenda que é papel do setor privado. Não importa, o que nós queremos é empregabilidade. Então, há um ponto em comum que nós podemos construir. Nós vivemos em um país em que há um desmonte do SUS e da política voltada para a saúde e que não contempla muitas das especificidades de pessoas transexuais — por exemplo no que se refere à redesignação de gênero, hormonização, acesso a hormônios. Então, isso a gente pode construir coletivamente e há um consenso, é pacificado. A ideia é a gente pegar pontos pacificados, dar visibilidade, e também assumir um compromisso de que, caso eleitos, vamos colocar isso em prática.


 

Fazemos parte de um grupo que 90% está na prostituição, nós nunca fomos pauta nem da esquerda, do centro, da direita. Sempre fomos nós por nós"

 

Uma das questões que une essas diferentes candidaturas é a segurança. Uma pesquisa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais de 2020 mostrou que 80% das trans eleitas não se sentiam seguras para exercer seus mandatos. Como garantir a segurança das pessoas trans antes, durante e depois das eleições?


Duda: Essa é uma das nossas maiores preocupações e que difere muito a nossa candidatura, de pessoas travestis e transexuais, de outras candidaturas. Nós temos como consenso o fato de que vamos enfrentar a eleição mais violenta da história do país. Isso significa que vamos ter muita violência política, que vai desde o ponto de vista simbólico e moral até o medo da violência física. Não sei por quantas violências políticas eu vou passar, nem se vou sair viva desse processo. Isso é uma preocupação minha e de outros parlamentares trans também. Em 2018, quando me candidatei para o Senado e me tornei a primeira transexual da América Latina a disputar o cargo de senadora da República, eu sofri muita violência política. Eu lembro que, quando eu lancei minha candidatura, os dois filhos do Bolsonaro compartilharam minha candidatura como forma de deboche e meu Instagram recebeu milhares de mensagens de ódio. Foi tanta mensagem de ódio que o Instagram bloqueou a minha conta. E, não satisfeitos com isso, esses grupos começaram a mandar e-mails, telefonar e chegaram a mobilizar uma manifestação na porta da escola onde eu trabalhava, exigindo minha demissão. Eu só não fui demitida porque os alunos me defenderam de forma mais incisiva. Em 2020, após eu ser eleita e me tornar a vereadora mais votada da história de Belo Horizonte, recebi três ameaças de morte do maior grupo de ódio da internet brasileira dizendo que iriam me matar e transformar a escola em que eu dava aula num mar de sangue. Esse mesmo e-mail foi encaminhado para os donos da escola, para a direção da escola e para alguns professores. Eu acabei sendo demitida após essas ameaças de morte. Isso é uma violência política. Nossas campanhas já são subfinanciadas comparado às outras candidaturas, e nós ainda temos que separar uma fatia desse valor, que já é pequeno, para poder alugar carro blindado, para poder alugar segurança. Isso diminui muito a chance de sermos eleitas, porque a gente vai tirar uma fatia que poderia estar investindo na campanha eleitoral para estrutura de segurança. Eu acho que a Polícia Federal deveria garantir segurança para nós, pessoas transexuais, como garante aos candidatos à Presidência. O Ciro Gomes, o Lula e o Bolsonaro vão ter a Polícia Federal garantindo segurança deles, por que não a nossa? A democracia pressupõe uma diversidade de corpos no Parlamento e na disputa eleitoral. Não tem como ter equidade na disputa se não tiver preocupação do Estado e dos partidos em relação à segurança.

Como pessoas cis e/ou heterossexuais podem ajudar na luta das pessoas LGBTQIA+?

Duda: Sendo aliado. Aquela frase que criaram após a vitória do Bolsonaro em 2018: ninguém solta a mão de ninguém. Foi até muito criticada essa frase, mas eu gosto dela. É a gente entender que nós temos um inimigo comum, temos as nossas especificidades — eu enquanto uma mulher trans, você enquanto uma mulher cis, outra pessoa enquanto negra, enquanto indígena — mas nós sabemos de onde vem essa violência. Então, interseccionalizar a luta e saber que juntos nós somos mais fortes. O inimigo é um só, que é esse modelo econômico que tá aí no Brasil e que nos coloca na situação de neocolônia, aviltados socialmente. Então, nós temos que lutar por uma mudança profunda no modelo econômico brasileiro. A melhor forma de responder é: comprar nossa briga mesmo, tem que andar junto. Se mexeu com uma, mexeu com todas. Além disso, a gente tem no Brasil, hoje, a chance de eleger, pela primeira vez na história, uma ou mais pessoas travestis e trans para o Congresso Nacional. Isso é muito importante porque a democracia pressupõe uma diversidade não só de ideias, mas também de corpos e identidades. A gente tem que entender a importância do voto. Essa é a eleição mais importante da nossa geração, e a gente quer, no dia 1º de janeiro, que o Brasil volte a ter esperança e a sonhar grande.

Se o Bolsonaro tocou as pessoas pelo ódio, que nós toquemos as pessoas pela esperança. Quando uma travesti é eleita, quando ela avança, a sociedade inteira avança, porque nós fazemos parte de um grupo que a expectativa de vida não supera 35 anos, que 90% tá na prostituição.




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