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Diversidade religiosa

Mestre Marne quebrou tabus para defender a fé nos orixás

Terreiro é responsável pela Festa de Iemanjá que encanta no Pontal Norte

Redação DIARINHO [editores@diarinho.com.br]

A umbanda faz parte da família do gaúcho há cinco gerações (FOTO: RENATA ROSA)

 A Grande Rio, vencedora do Carnaval carioca deste ano, trouxe o tema da perseguição às religiões afros e, em especial, à mais mal-compreendida das entidades, Exu, aquele que abre os caminhos e trouxe o primeiro título da escola. O enredo contou com a consultoria de um dos mestres de umbanda mais respeitados do país, Marne Franco Rosa, de 82 anos, que trocou Santa Maria por Balneário Camboriú há 28 anos. “No dia seguinte que me aposentei como servidor, vim pra cá, em 1994, e abri o terreiro Reino de Juna Bony, termo africano para Lua de Amor”, relata.

Por aqui, Marne acredita que conseguiu derrubar a ideia equivocada relacionada à umbanda, como sacrifício de animais, e a incorporação inconsciente de espíritos. Segundo ele, cujo biótipo foge do clichê associado ao pai de santo, muitos justificam atos condenáveis por estarem incorporados, e isso prejudica a imagem da religião, que mescla a fé nos orixás com devoção a santos católicos e elementos do espiritismo, ou seja, a cara do Brasil. “Quando minha mãe me levou ao terreiro, aos 13 anos, e vi as pessoas incorporadas falando palavrão, eu quis fugir. Por isso, trabalhei minha espiritualidade para sempre estar presente e ciente do que estou fazendo, mesmo estando incorporado”, explica.

Mestre Marne é filho de Ogum e pai de sete filhos. Ele conta que a família está na quinta geração de umbandistas. Tudo começou com seu pai João, filho de Oxóssi, e sua mãe Marfisa, filha de Oxum. Assim como no candomblé, a umbanda cultua orixás, mas se diferencia por agregar cultos católicos, uma estratégia para fugir da perseguição religiosa. Ao contrário da perfeição dos santos, os orixás têm facetas humanas, por isso não são divinos, mas divinizados. No sincretismo, Ogum é São Jorge, Oxóssi é São Sebastião e Oxum, Nossa Senhora.



“Na umbanda também não existe o perdão incondicional. Tipo matou, foi batizado e se salvou. Não, se a pessoa fez o mal, ela vai responder por ele. Exu abre caminhos, mas se a pessoa for desonesta, ele será implacável”, diz. Jesus também tem espaço na umbanda, mas não na forma crucificada. “Não cultuamos a maldade, por isso seguimos Jesus Nazareno”.

O terreiro fica no bairro Vila Real e é frequentado por pessoas de todas as idades e classes sociais em busca de alívio de suas dores espirituais. Mas o que as atraiu na umbanda? “Elas se sentem acolhidas, os rituais são festivos e a atmosfera é de amor fraterno, sem julgamento ou cobranças”, acredita. A casa fica movimentada a semana toda. Tem dia para jogo de búzios, desenvolvimento da mediunidade e oferta de passes. 

Dia 15 de novembro é comemorado o Dia da Umbanda, marco histórico da primeira vez que o caboclo das sete encruzilhadas baixou num jovem marujo de Niterói acometido de uma doença misteriosa, em 1908. A umbanda foi criada para dar espaço aos espíritos de negros escravizados e indígenas, como o preto velho, que não eram acolhidos pelos kardecistas.


Em fevereiro, Mestre Marne comanda a Festa de Iemanjá no Pontal Norte, um dia antes da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Mas a mãe dos mares ainda não conheceu a praia nova, cuja faixa de areia foi triplicada. Por causa da covid, a última festa foi em 2020. Milhares de devotos de azul e branco enfeitam um barco que leva sua imagem com flores e frutas e dançam, enchendo de encanto e cor a praia rendada de espuma. Que venha 2023!

Não cultuamos a maldade, por isso seguimos Jesus Nazareno"  

Marne Franco 




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