SUPERAÇÃO

Deficiência nunca impediu Jailton de fazer o que quis; até elevador em casa ele construiu

Autodidata por natureza, o peixeiro fez adaptações engenhosas para se manter ativo e produtivo por três décadas

Jailton ficou paraplégico aos 21 anos, quando trabalhava como pedreiro (foto: Renata Rosa)
Jailton ficou paraplégico aos 21 anos, quando trabalhava como pedreiro (foto: Renata Rosa)

Quem chega na casa de Jailton Francisco, de 51 anos, percebe um elevador na entrada da residência que permite que ele acesse o segundo piso de cadeira de rodas. Na oficina, ao lado, um torno ajustável sustenta a massa que em breve se tornará um vaso. E, em frente, um caminhão de frete tem a direção modificada para que ele dirija sem acionar os pés. O autor dessas adaptações é o próprio Jailton, que afirma nunca ter deixado de fazer qualquer atividade desde que ficou paraplégico aos 21 anos, quando trabalhava como pedreiro.

“Eu continuo sendo o mesmo. Desde pequeno, se encontro dificuldade, invento um jeito de resolver. Se não persistir, nem faz sentido começar”, justifica. Essa determinação foi fundamental para se reabilitar de uma queda de um galpão em Ilhota que quebrou sua coluna. Ele se recusava a ser carregado e cada pequeno progresso era muito comemorado, o que o incentivava a seguir em frente.

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“Só de sair da cadeira para a cama já me deixava feliz. Eu consegui trepar num pé de manga sete meses após o acidente, e depois de três anos trabalhando como cobrador, voltei para a construção civil”, revela. Para isso, adaptou andaimes de forma a erguer paredes sem ajuda, assim como fixar pisos na escola Melvin Jones e na creche ao lado.

Foi assim também quando comprou seu caminhão. Durante dois anos, ele trabalhou com a mulher numa fiação caseira para atender uma loja de Navegantes. Mas a vontade de ver o mundo lá fora era maior, e ele trocou um carro, uma máquina de costura e um triciclo tuk-tuk por um caminhão Mercedes Benz 180D, ano 1995. Mas a troca não foi muito vantajosa.

O caminhão, de fabricação argentina, tinha que ser reformado e era difícil encontrar peças. Então, ele achou no Facebook um grupo de caminhoneiros com o mesmo modelo que buscavam peças na internet. Depois, quando foi transferir o veículo, viu que o antigo dono tinha deixado uma dívida imensa. E agora? “Entrei em vários grupos, coloquei anúncio no OLX e botei o carro para rodar. Se pintasse algum problema mecânico, eu mesmo arrumava. A dívida tá quase paga”, se orgulha.

Aliás, as redes sociais são essenciais para Jailton, que avisa não poder ajudar a carregar os móveis que fabrica em casa. Morador de Cordeiros, ele conta que seus clientes são gente do interior vindo para Itajaí em busca de uma vida melhor. Como a limitação física nunca foi empecilho para se reinventar, este ano resolveu fabricar vasos de cimento, utilizando a matéria-prima que ele usou por anos na construção civil. Primeiro com fins utilitários, depois quer bolar um jeito de fazer esculturas, já que tem experiência no ramo.

É de sua autoria os bonecos gigantes do Carnaval, inspirados em personagens icônicos da cidade, como seu Cueca, do grupo de boi-de-mamão, e o fundador do DIARINHO, Dalmo Vieira. “Fiz um carro alegórico para a Escola de Samba Família com seu Dalmo enfrentando os tubarões da cidade. Atrás fiz um anjo derrotando o diabo, simbolizando o bem contra o mal”, recorda. Assim como Dalmo, Jailton faz jus à máxima do brasileiro que não desiste nunca. Por mais pedras que apareçam no caminho.



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