Matérias | Entrevistão


Ana Paula Bastos Cardoso

“O luto tem que ser encarado como uma forma natural da vida”

Psicóloga e palestrante

Redação DIARINHO [editores@diarinho.com.br]




mês de setembro ficou conhecido, internacionalmente, como o mês de ações de prevenção ao suicídio. A data surgiu após Mike Emme, de 17 anos, cometer suicídio nos Estados Unidos, em 1994. Ele era um adolescente carinhoso e deixou sua marca em um Mustang 68, que restaurou e pintou de amarelo. Os amigos e a família de Mike nunca perceberam que ele estava enfrentando problemas emocionais. No ano passado, mais de 12 mil pessoas cometeram suicídio no Brasil. Para falar sobre o tema, a jornalista Franciele Marcon entrevistou a psicóloga e palestrante Ana Paula Bastos Cardoso. A profissional falou sobre o problema de saúde pública vivido, orientou pais e amigos a identificar as tendências suicidas, destacou a importância das redes de apoio público e também da pandemia de covid-19 que, com o isolamento social e as medidas restritivas, também ampliou os problemas emocionais. As fotos são de Fabrício Pitella. Você confere a entrevista completa em vídeo e áudio no portal diarinho.net e também em nossas redes sociais.


 

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DIARINHO – São 12 mil suicídios ao ano, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2020, o que deixa claro tratar-se de um problema de saúde pública. Qual a forma correta de encarrar a questão sob a ótica das políticas públicas?

Ana: O suicídio precisa ser falado, discutido, debatido, e a gente precisa entender que é necessário ter uma rede de apoio bem fortalecida. Existem programas municipais. Infelizmente, não são todos os municípios que acabam tendo esses lugares seguros para tratar essa demanda. Porém, é necessário que as pessoas conheçam. Tem também o CVV [centro de Valorização da Vida]. Infelizmente, a gente sabe que, politicamente falando, ele não consegue alcançar toda a população. Não é todo mundo que tem esse olhar para essa questão. É necessário que a gente entenda que as pessoas precisam e têm, sim, disponíveis algumas ferramentas. Alguns municípios trabalham com campanhas, com psicólogos e rede de apoio para aquela população. Porque ela é uma questão coletiva, mas é muito individual. Eu costumo falar assim: o que eu estou passando, seja relacionado a um luto, uma perda, e você também está passando pela mesma demanda, a demanda pode ser igual. Porém, a forma como a gente vai lidar com isso é que faz a diferença. A gente sabe que o suicídio é uma busca, na verdade, incessante, pra aquela pessoa que está passando por um sofrimento interno muito intenso. E que ela pensa no suicídio como uma possibilidade. Mas, talvez, ele nem esteja na sua lista. Se tiver, que esteja lá na última opção e que a gente tenha recursos disponíveis, e saiba onde buscar esses recursos para conseguir aliviar, e trabalhar toda essa problemática que está fazendo com que a pessoa recorra ao suicídio.

DIARINHO – É a terceira maior causa de morte entre jovens, de 15 a 29 anos. Por que os mais jovens estão desistindo de viver?

Ana: O que a gente percebe, na verdade, é um desprazer, uma desesperança. É claro que, quando a gente vai falar nessa estatística, nas palestras, eu costumo abordar assim. É a segunda, terceira maior causa de mortes, de acordo com a Organização Mundial da Saúde, sendo que a primeira são os acidentes de trânsito. E tem uma relação. Quantos acidentes, talvez, foram intencionais, não foram ao acaso? Não foi apenas um acidente no trajeto. A gente pode aumentar muito ainda essa proporção. O suicídio está relacionado a vários fatores, é uma questão multifatorial. Ele está muito ligado ao uso e abuso de álcool, outros tipos de drogas, transtornos psiquiátricos, transtornos mentais. A gente vai entender que, se o jovem não for diagnosticado, de forma correta e muito cedo, ele pode acabar tendo um desvio, buscando refúgio em álcool e drogas. Isso potencializa a questão do suicídio, da tentativa, das ideações. Porque, na verdade, ele começa nas ideações, nos sentimentos, nas ideias, nos pensamentos persistentes. E, se ele não buscar essa rede, esse local seguro para falar sobre o assunto, sim, pode avançar para algo que venha a se concretizar.

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DIARINHO – Quase dois anos após o início da pandemia, já é possível mensurar o impacto psíquico causado pelo isolamento, distanciamento social e pelas incertezas de cura do vírus que atingiu o mundo inteiro?

Ana: Pesquisas científicas estão sendo produzidas e, logo mais à frente, a gente vai ter isso bem palpável. Porém, já se percebe o impacto social que tem causado a questão do isolamento, da reclusão, das perdas, dos lutos, do desemprego, da fome, dos divórcios... São várias questões que tem aumentado, se intensificado com a pandemia. E isso já está presente nos consultórios. Clinicamente, já se percebe um aumento na ansiedade, nos quadros de depressão, no agravamento de transtornos que existiam antes da pandemia... O TOC, transtorno obsessivo compulsivo, aquela necessidade de toda hora estar se higienizando, se cuidando. E também agora já se sabe que é uma expectativa, infelizmente, mas que vai acontecer também agora o TEPT – transtorno de stress pós traumático. Os impactos ainda virão, a gente ainda está atravessando e passando pela pandemia. É claro que essa conta negativa, uma hora, vai chegar. Por isso é  importante sempre trabalhar a prevenção, pra que se esteja preparado para aquilo que ainda está por vir.

DIARINHO - Qual conselho você pode dar para as pessoas, que perderam familiares ou entes queridos pra covid, no sentido de superarem a dor?

Ana: Sim, é difícil. Sei por motivos pessoais. Eu também perdi meu pai. Ele e minha mãe testaram positivos juntos, no início de dezembro. Ele acabou sendo hospitalizado, e minha mãe ficou bem. No dia do Natal, ele entrou na UTI, onde ficou 40 dias, e, infelizmente, veio a óbito. Não é fácil. Mas eu sempre digo assim: o luto tem que ser encarado como uma forma natural da vida. Todos nós nascemos, crescemos, desenvolvemos e, uma hora, morreremos e partiremos. Só que a gente sabe que essa verdade acaba sendo algo muito evitada. Até em pensamentos. Se a gente parar pra fazer um exercício, pensa o que aconteceria, agora, com você se soubesse que pessoa tal morreu. “Não, não quero nem pensar nisso”. A gente vai evitando. Então, é importante a gente entender como algo natural e vivenciar esse luto. A gente tem que aprender a parar pra viver, pra se cuidar, pra descansar, quando necessário, e, depois, aos poucos, no teu tempo, retomando o seu círculo social. Tanto de emprego, de trabalho, de amigos e de família. Mas é muito importante se respeitar nesse momento. E me colocar no lugar do outro, de quantas pessoas perderam várias pessoas da família. Eu vi casos de pessoas que perderam o irmão, depois, o pai e, em seguida, a mãe, e, depois de um tempo, perdeu a vó. É muito dolorido. Mas é uma dor inevitável, cedo ou tarde, todos passaremos, seja por covid ou por qualquer outra situação. Todos nós, uma hora, lidaremos com o luto. Mas é importante a gente vivenciar. O maior problema é quando a pessoa não quer viver o luto. Porque, realmente, dói. É uma dor muito intensa. Por isso, é importante a gente sempre estar preparado para viver o dia bom, mas, também, para viver o dia mau. Porque ele está aí, infelizmente, faz parte.

 

“O maior problema, que eu percebo, é quando a pessoa não quer viver aquele luto”

 

DIARINHO - As sequelas de quem sofreu covid também são emocionais?

Ana: Têm sequelas emocionais. Se a gente falar, cientificamente, daqui a pouco, muitos artigos serão publicados sobre essas sequelas. Hoje, rotineira e cotidianamente, a gente já consegue perceber que existem muitas sequelas. Vamos citar um exemplo: uma pessoa, muito ativa, ficou muito tempo na UTI, e, de repente, ela sai com uma sequela que não pode mais caminhar. Ou, ela falava bastante e, de repente, é afetada, pela questão da traqueo - que mexe com as cordas vocais. Isso acaba gerando um impacto emocional sobre essa vida. Antes, eu era assim, fazia assado e, agora, não consigo mais. Até a família, o desgaste que foi para aquela família. Enquanto a pessoa está com cuidados intensivos, em uma unidade de saúde, têm os outros. A família, que teve de se desdobrar, porque esse era o responsável por trazer os mantimentos pra casa – e agora não pode mais trazer, não pode trabalhar. Alguém da família perdeu o emprego, sobrecarregou o outro. Alguém tinha um status de vida, crianças em escola particular, e, de repente, chega a pandemia... Vamos para outro tipo de escola, e perde aquele vínculo. A gente sabe que, daqui a pouco, a gente vai saber do impacto grande que vai acontecer na saúde emocional. Isso é um fato, principalmente, para aqueles que ficaram com as sequelas. Por isso, é importante ter uma rede de apoio, pós-covid, tanto para quem passou pelo quadro, como para quem estava presente, em torno dessa pessoa.

DIARINHO – Por que é importante falar sobre transtornos mentais e tendências suicidas?

Ana: É muito importante, de extrema relevância. Quando a gente tá falando de suicídio, duas coisas me chamam muito atenção, além dos números, das estatísticas, como a gente já mencionou. Não é só a questão da dificuldade com o álcool, a droga, o acidente, enfim. Tem também os transtornos. Não é que a pessoa, que tem depressão ou está num quadro depressivo, vai ser um possível suicida. Isso não tem nada a ver. Até, muitas vezes, é importante falar, que pessoas, que estão se sentindo deprimidas, elas têm até dificuldade de procurar ajuda, ou falar com algum familiar, algum amigo, por conta disso: já ligaram depressão com suicídio. Se eu falar que estou me sentindo deprimida ou que estou com depressão já vão associar que eu posso querer tirar a própria vida. E não é bem assim. Duas coisas, que mencionei, que me chamaram a atenção é que nove entre 10 casos de suicídios poderiam ser evitados. E muito deles estão relacionados a quadros de transtornos mentais. Ou seja, que não foi diagnosticado ou que foi mal diagnosticado. Ou que essa pessoa sabia que tinha aquele quadro, exemplo, transtorno bipolar, borderline, depressão, ansiedade, e não fez o tratamento de forma correta. Isso acaba acarretando, lá na frente. Se a gente for procurar, às vezes, nos centros de saúde, ela teve um atendimento, porém, não teve uma continuidade de tratamento. O que acaba acarretando um possível suicídio lá na frente. Enquanto profissional da saúde mental, eu falo assim: é importante falar com muito zelo e cuidado. Por quê? Eu tô aqui, vamos supor, numa palestra, falando com 100 pessoas. Dentro daquele auditório, eu preciso lembrar, que não estou falando apenas com pessoas interessadas em oferecer ajuda ou em entender melhor como poder ajudar. Mas pode ter alguém, ali, que está pensando em tirar a sua própria vida, que está num sofrimento, e pensou: “Olha, como eles vão falar sobre isso. Eu tô sentindo isso, vou lá pra me sentir acolhido, pra ver o que eu posso fazer”. E, se eu falar de uma forma errada, posso levar ele a, como a gente fala, um gatilho. A pessoa fez de tal forma para tirar sua vida, foi encontrada assim porque ela fez assado... E isso pode até gerar ideias, dando sugestões para aquela pessoa, que está num estado tão intenso de sofrimento, que não consegue mais nem raciocinar de forma coerente. Ou que acaba levando, ao que a gente chama de Efeito Werther, quando um caso acaba propagando outros casos em sequência.

 

“A rede social tem servido quase como uma sessão de terapia”

 

DIARINHO – Quando o esgotamento mental vira depressão, há transtornos mais graves e tendência ao suicídio? Quais sintomas devem ser observados por familiares e amigos?

Ana: Tem algumas frases-chave, em tempos de redes sociais, com as que precisamos estar bem atentos. Eu sempre falo assim: a rede social tem servido quase como uma sessão de terapia. A pessoa, às vezes, desabafa. Ela não sabe pra quem recorrer, não sabe pra quem falar, e o que ela acaba fazendo, ali, é expondo a vida dela. Tomar cuidado com algumas frases, “ah, eu queria jogar tudo pro alto, mas, se eu tiver que juntar, vou estar sozinho”. “Eu queria sumir por um tempo”. “Eu não aguento mais”. “Eu não sei nem porque que eu nasci, nem pra que eu nasci, eu não sei nem porque eu tô aqui ainda”. “Será que alguém sentiria falta de mim se eu sumisse por uns dias?”. “Eu queria dormir e não acordar mais”. São indícios de que algo não tá bem. Isso é um esgotamento já tão grande, e já tão avassalador. O sobreviver, não ter mais ânimo, prazer. Tudo isso que fazia, antes, com vontade, com bom ânimo já não tem mais. Já sente aquele desprazer, um desgosto pela vida, pelas coisas que fazia, pelas amizades, pelo trabalho, enfim. Já são sinais de alerta, a gente sempre tem que cuidar com as frases. “Ah, ele não teria coragem. É só pra chamar atenção”. Não, a pessoa não está chamando atenção, se ela chegar ao ato. Mas ela está, sim, tentando chamar atenção, de alguma forma, de que ela está sofrendo e não sabe lidar com esse sofrimento. É importante ter coisas que a gente tem falado tanto nessa pandemia, mas a gente tem visto tão pouco: empatia. Vamos supor assim, se você posta alguma coisa, de que você está desanimada, triste, queria dormir e não acordar mais. Não cabe a mim fazer uma piada ou julgar aquela tua frase. Mas quem sabe te chamar, de forma discreta, ali no Whats, a gente tem tantas ferramentas, e falar: “Tá acontecendo alguma coisa? De alguma forma, eu posso te ajudar? Você precisa de algo que eu possa fazer por você?”. Ali a gente já estaria se ajudando. Quem sabe a pessoa não vai se abrir pra você porque não conhece você, mas ela vai pensar: “Opa, alguém entende que eu não ando bem, que bom”. “Eu já sei que eu tenho talvez alguém pra compartilhar ou até pra me ajudar”. Mas, aí, o que acontece. A gente começa a fazer piada, começa a generalizar de forma a querer julgar, em tom de julgamento. A pessoa já não está bem, se sentindo socialmente desamparada, e ela começa a sentir que, nem dessa forma, chamou atenção de alguém. Isso acaba deixando-a mais reclusa ainda e internalizando aquilo que precisa ser externalizado. É muito importante, a qualquer sinal, que a família e os amigos perceberem, oferecer ajuda.

DIARINHO – Certas pessoas têm tendência à depressão. Qual o papel das medicações e das terapias no controle da depressão pra evitar os suicídios?

Ana: É muito importante, principalmente, pra gerar qualidade de vida. Porque, quando a gente fala em suicídio, a gente tá falando quase em desistência. Não aguento mais, aqui é o fim. E, quando a gente tá falando de recursos como terapia, a própria psiquiatria com intervenção medicamentosa, tudo isso vai gerar o quê no indivíduo? O bem-estar! Uma reaproximação com a vida dele, a vontade de viver retornando às atividades... Eu costumo comparar: é como a gente pensar num parque de diversão, num parquinho. Tem lá a gangorra. Se você bota uma criança pra brincar sozinha, ela vai brincar, por um tempo, e vai acabar desistindo. Porque essa gangorra vai ficar mais parada do que se movimentando. E assim é só a terapia e assim é só o remédio. Acho muito importante os dois profissionais atuarem juntos. A psicologia e a psiquiatria. Aí, você vai entender: de um lado, tem uma criança que representa a psicologia; e do outro, a psiquiatria. E eles, em movimento, vão acabar conseguindo entrar num equilíbrio. A gente vai fazendo toda uma retirada posterior quando ambos profissionais acharem que aquela pessoa já consegue continuar e encontrou, dentro de si, ferramentas para lidar com qualquer situação difícil e complexa de sua vida. Por isso, eu digo assim, a terapia com um psicólogo é fundamental no processo de autoconhecimento. Quando eu falo autoconhecimento não é autoajuda, não é ler um livro sobre isso. Mas é você se conhecer. Quem sou eu, como é que lido com as situações da minha vida. Eu tenho facilidade, quais são as minhas dificuldades, o que eu tenho de bom, de potencial em mim, o que eu tenho de dificuldade. Porque todos nós temos. Qual é a minha limitação? Até aonde eu posso ir? Até aonde eu não devo ir? Isso vai me dando ferramentas e recursos para eu lidar, da melhor forma possível, com toda e qualquer situação que venha sobre mim. Seja ela positiva ou negativa. E a psiquiatria tem esse papel fundamental, quando a gente vai falar de uma questão bioquímica. Ou seja, o indivíduo. Se a gente pegar uma tomografia de um indivíduo com depressão e um indivíduo sem depressão, o cérebro dele, com depressão, está praticamente inativo. Ele fica pouco aceso. Já sem depressão, ele está funcionando de forma ativa. Como é que eu vou pegar uma pessoa com depressão, em terapia, e querer tratar apenas aqui, na escuta e na fala, se o cérebro dela é como se estivesse apagadinho, adormecido? Ou seja, toda a minha intervenção, o que eu estiver falando, fazendo e ofertando pra ela, não vai receber de forma rápida, efetiva. Vai demorar muito esse processo. É importante a questão do medicamento. Porque, daí, esse cérebro, ele vai, de forma química, ser reativado e tudo que for sendo proposto, na terapia, vai começando a fazer sentido. A pessoa vai começando a assimilar, da melhor forma, o que ela deve fazer, como ela deve fazer. É muito importante, eu vejo isso como uma gangorra. Os dois têm que estar se alinhando, lado a lado, trabalhando para o benefício dessa pessoa.

DIARINHO – Existe uma tendência de tratar problemas emocionais contemporâneos, que são acentuados pelo ritmo de vida agitado, pela solidão e pelo excesso de uso das redes sociais, com medicações que induzem ao sono ou tratam a depressão e a ansiedade. Esses remédios não causam dependência e efeitos colaterais?

Ana: Pode, sim. Por isso, é sempre importante o papel do psiquiatra no tempo correto dele. Sabe aquela história assim: “Ah, eu fui lá, peguei uma receita para 30 dias”. Ok. Você sabe que, perto dos 30 dias, o seu medicamento já vai estar no final. Se você deixar pra remarcar essa consulta, ela vai estar muito além dos 30, então, você vai ficar talvez 10, 15, 20 dias sem o remédio. E esse é o perigo. É onde a gente fala que são os espaços, as brechas onde podem ocorrer gatilhos, como ideações, pensamentos obsessivos, que a pessoa não consegue lidar da melhor forma. A melhor coisa é você ter uma continuidade. Seja no que for. Na terapia, na intervenção medicamentosa. Você ter equilíbrio. Você começa, dá continuidade da forma correta e termina. Início, meio e fim. A mesma coisa no psicólogo. Senão, o que acontece? A pessoa vai buscar ajuda quando a pessoa tá mal. O remédio começa a fazer efeito, o psicólogo, tudo que ele vai propondo, você vai vendo resultado. Em três semanas, você pensa: “Agora, tô tão bem, não preciso mais continuar”. E, daí, é o que a gente fala, a famosa recaída. A pessoa sai e acabam vindo as pressões. Ela ainda não está 100% preparada, o remédio ainda não fez, de forma correta, o que ele deveria fazer e acaba dando aquela queda brusca, e a pessoa começa, de novo, a se sentir mal, deprimida, triste. Às vezes, tem vergonha de retornar ao psiquiatra, ao psicólogo. Por isso é muito importante ter essa mentalidade de “comecei, eu vou terminar”.

DIARINHO – Qual a melhorar forma de abordar e tratar o suicídio: desviando o tema principal ou abordá-lo de maneira direta e objetiva?

Ana: Eu sempre falo assim, tudo que a gente fala, hoje em dia, já está na rede social. Eu gosto muito de trabalhar a questão de prevenção ao suicídio com crianças e adolescentes. Eu dou palestras em escolas. Eu falo sobre ele. Porque, se eu não falar, ninguém vai falar com essa criança e esses adolescentes. Mas a internet vai mostrar pra ele barbáries que ele nem vai estar preparado para lidar. A gente tem que falar de forma direta. Como eu falei, alguns cuidados, principalmente, evitar tanto jornal, rede social, quando for falar. A pessoa tirou a sua própria vida, foi já encontrada sem vida, considera-se que possa ter sido suicídio. Porém, se você está passando por algum problema, alguma dificuldade, busque ajuda, você não está sozinho. Você oferecer uma oportunidade pra aquela pessoa, que está lendo: “Ah, eu tô me sentindo igual essa pessoa. Mas isso não é a solução. Eu vou lá pra outro lugar. Vou ali, ofereceram ajuda. Vou ligar pra aquele número e vou conhecer aquele programa municipal”. Porque, daí, a gente tá falando o quê? A gente está prevenindo o suicídio, mas promovendo a vida. Promovendo saúde, bem estar mental, bem estar emocional. E, muitas vezes, não é isso que acontece. A gente quer falar sobre o suicídio. Eu costumo falar assim: é um armário trancado a sete chaves.  A gente vai lá, escancara o tema e vai embora. A pessoa, que estava lá no meio da plateia, como eu citei por exemplo, uma palestra, vai dizer: “Meu Deus, o que eu faço com isso agora? Toda essa informação que eu ouvi, todos esses casos que eu ouvi aqui. Para onde eu vou agora? Com quem eu falo?”. É muito importante a gente falar sobre, mas também dar os caminhos. Dar as outras possibilidades, abrir possibilidades. Entre o oito e o 80, você tem muitas possibilidades. A gente tem que fugir desses extremos. Tem que ter um preparo para falar e, principalmente, para o pós. Em muitas palestras, eu já tive essa questão de falar e, depois, a criança, se sentir acolhida, e querer me chamar. Falar assim: “Eu já pensei nisso. Eu tô fazendo isso comigo, mas eu não queria”. A gente abrir essa possibilidade. Não apenas encerrar, ir embora e tchau. Fiz minha parte, dei uma palestra legal. Não... É você ir, com tempo, e preparado para intervir no que for necessário.

DIARINHO – A rede de apoio pública, para evitar suicídio, tem funcionado em Santa Catarina? O que poderia ser feito para melhorá-la e salvar mais vidas?

Ana: É uma situação delicada, mas eu acredito que, sempre, pode ser feito mais. Quando eu leio que, de acordo com a OMS, de 10 casos nove poderiam ser evitados, eu penso: “Como assim?! Evitados como? De qual forma?”. Vamos pensar na forma micro: minha família viu os posts, perguntaram para mim, me julgaram, não me senti acolhido e aconteceu. Pode ser. E da forma macro, quando a gente vê que está acontecendo, existem pessoas, vereadores, que querem fazer trabalhos em escolas, em presídios, em vários locais, em várias organizações, dentro de igrejas, falar sobre, e alguém barra, não autoriza, não quer auxiliar... A gente pensa no desamparo. Eu acredito que poderia ser feito muito mais, mas, quando a gente fala em políticas públicas, foge ao meu alcance.

 

Raio X

NOME: Ana Paula Bastos Cardoso

NATURALIDADE: Lages

IDADE: 37 anos

ESTADO CIVIL: Casada

FILHOS:  dois filhos

FORMAÇÃO: Psicologia

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL: Consultório de Psicologia no Centro de Balneário Camboriú. Palestras de Prevenção ao Suicídio, com ênfase na saúde mental e emocional, para crianças e adolescentes e também pais e professores.

 

 



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