Itajaí

O desbravador da enchente

Lúcio Tassion Marques mora na rua Manoel Joaquim Coelho, no Dom Bosco, uma das ruas que ficou alagada na enchente do início de setembro. Aos 33 anos, o técnico de informática bolou uma tática para lidar com a cheia. Ao ser informado por amigos que viria mesmo uma nova enchente, Lúcio foi para Penha, buscou sua lancha na marina e chamou o irmão. Eles levantaram todos os móveis da casa do técnico de informática e na sexta-feira, dia 9, estavam prontos para a missão.

Lúcio e sua lancha, a Peixe Galo, saíram pelas ruas alagadas de Itajaí resgatando pessoas e levando mantimentos para aqueles que decidiram não abandonar o lar, mesmo com água para cima da janela ...

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Lúcio e sua lancha, a Peixe Galo, saíram pelas ruas alagadas de Itajaí resgatando pessoas e levando mantimentos para aqueles que decidiram não abandonar o lar, mesmo com água para cima da janela. Enquanto isso, o seu irmão e o amigo Moises Vieira ficavam na avenida Abraão João Francisco, a Contorno Sul, organizado bombonas de águas e mantimentos, para serem entregues aos necessitados.

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“Eu nunca sei quando alguém está precisando. Eu saio por aí, vou entrando de rua em rua no Promorar procurando quem precisa de ajuda. À noite eu passo com um facho de luz”, conta. Na saída de rua em rua, a primeira família que Lúcio ajudou foi no Promorar. Um casal e uma menina foram resgatados de cima do forro. “Eles tinham levantado tudo, pensavam que a água não ia subir, mas o rapaz já tava com água no peito e já tinha colocado a mulher e a filha pro telhado”, recorda. O casal comentou que esperava a defesa civil vir buscar, mas não tinha aparecido ninguém ainda.

No Promorar, Lúcio se emocionou ao salvar, no sábado, duas mulheres que estavam com duas crianças, uma de colo e outra de uns dois anos, em cima do telhado. Não havia homem na casa, elas moravam bem na beirada do rio e estavam sozinhas com os filhos. “Elas estavam em cima do forro e a criança estava toda suja, cagada, não tinha fralda”, conta. Lúcio tirou as mulheres da casa e as deixou na avenida Contorno Sul, onde o irmão dele estava de caminhonete e as deixou no ginásio Gabriel João Collares.

Também no Promorar, atrás da empresa Sadia, Lúcio quebrou parte da hélice de seu barco ao tentar fazer um resgate. “Eu tava em cima da casa, na beira do rio, e não percebi. Uma mulher gritou de uma casa de dois andares ‘tais em cima de uma casa’”, recorda.

Lúcio relembra que muitas vezes deixava as pessoas na Contorno Sul e já saía dali cheio de bombonas de água. “A necessidade maior é água. A turma esquece que o pessoal mais pobre não tem caixa de água, o cano vem direto da rua e ficam sem água”, comenta.

Lúcio não sabe se mais resgatou pessoas nesta enchente ou se mais levou água nas casas dos atingidos pela cheia. “Ajudei a tirar pessoas das casas, mas o que mais ajudei foi com água. O meu irmão ficava com a caminhonete aqui, juntamos bombonas cheias e vazias com o pessoal da Ressacada. Ele ia até o poço artesiano do Moises, enchia de água e passava o radio avisando. Eu ia pelas ruas e, geralmente, o pessoal levantava as bombonas e dizia ‘água’ e nos trocávamos os galões”, conta Lúcio.

Na navegação pelas ruas alagadas, Lúcio diz que os moradores esqueciam os cachorros presos em casa. “Se for contar acho que resgatei uns 30. Era cachorro em cima do telhado, dentro do cercado, que tive que pular e tirar. O cachorro nadando, quase se entregando. A turma tá esquecendo, acontece isso direto”, comenta. Lúcio pegava os cachorros e também os largava na Contorno Sul.

Além da falta de atenção com os cães, Lúcio também reclama da ineficiência da Celesc ou esquecimento do povão em desligar o relógio de energia elétrica. “Tinha mais de um metro água e não desligam a energia. A gente foi encostar em um portão aqui na Ressacada, para um senhor subir na lancha, e quase fiquei grudado. Tem que rever este ponto”, adverte.

Voluntário solitário

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Está é a segunda enchente que Lúcio trabalha como voluntário, totalmente separado da estrutura montada pela defesa civil e investindo dinheiro do próprio bolso para ajudar o próximo. O motivo para tamanha dedicação parece simples em sua voz. “Gosto de ajudar os outros. Não custa. A gente tem condições e tem a maneira certa de chegar”, simplifica, falando que ele e o irmão têm curso de salvamento e mergulho.

A recompensa para tamanha dedicação vem no momento do agradecimento. Lúcio conta que o pessoal não sabe como agradecer. Alguns querem oferecer cerveja, bebida, comida e outros querem até pagar. Todas as ofertas são recusadas por ele. “O agradecimento das pessoas, isso é que paga o tempo que a gente passa dentro da água. Tem gente que pergunta quanto é que foi? Gente inocente, né...”, fala, com um sorriso sincero nos lábios.

Depois de ajudar famílias no Promorar, Carvalho, São Judas e Ressacada, no domingo, Lúcio cessou os resgates. A “Peixe Galo”, na quinta-feira passada, descansava no Dom Bosco, antes de voltar para a marinha na Penha. Cuidadoso, Lúcio limpou a embarcação, consertou algumas avarias e a deixou imponente no terreno. Ele sabe que, como o nome diz, ela estará firme e forte para uma nova missão.

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IMAGEM DA ENCHENTE

“Uma família em cima do forro, com oito crianças e não quis vir embora. Isso ali no Promorar. Ainda disse para o cara da casa: ‘cheio de crianças, deixa de ser osso duro, vamos embora, vais deixar essas crianças aí?!’. Ele só disse ‘traz água, que vamos ficar aqui’. Daí levei algumas bombonas de águas, pão e um maço de vela”

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LIÇÃO DA ENCHENTE

“A gente tem que ficar de olho nas autoridades e quando elas falam ‘vai vir água’ é porque vai vir mesmo. Eles sempre falam menos, então, tem que ficar em alerta. O pessoal tem que prestar atenção e seguir”

 



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