Força ancestral

Maria Paulina driblou ciladas da vida para garantir a saúde do povo

Paulina é a primeira mulher negra a ser diretora de Planejamento da secretaria de Saúde de Itajaí

Maria Paulina foi a primeira mulher negra a assumir cargo de chefia na secretaria de Saúde de Itajaí (FOTO: RENATA ROSA)
Maria Paulina foi a primeira mulher negra a assumir cargo de chefia na secretaria de Saúde de Itajaí (FOTO: RENATA ROSA)

Maria Paulina Pereira da Silva, 44 anos, seguiu à risca o lema do avô estivador, que sabia das dificuldades que seus descendentes enfrentariam. Ele dizia que negros tinham que ser como flechas, pois tinham inteligência para chegar aonde quisessem, mas teriam que trabalhar em dobro, pois sua capacidade sempre seria questionada. Uma determinação que Paulina adotou para construir uma carreira sólida, se tornando a primeira mulher negra a ter cargo de chefia na secretaria de Saúde. E com uma dedicação exemplar que lhe rendeu o prêmio “Simeão”, em 2021.
“Foi assustador. Durante um ano trabalhamos 18 horas por dia. Tivemos que fazer plantão direto porque muitos foram contaminados. Além disso, os protocolos mudavam todo dia”, relembra a enfermeira, que geria 1800 servidores. Ela também não escapou da doença em 2020, quando não havia vacina. Por causa da covid, ficou com sequelas no coração e artrite. E na falta de orientação do Ministério da Saúde, a saída foi se pautar pela ciência. “Nosso norte era a Vigilância Epidemiológica. Eu estava sempre a par dos dados mais atuais”, revela.
Paulina é especialista em Saúde da Família e conta que Itajaí sempre se destacou no atendimento à saúde primária, que previne doenças em vez de apenas tratá-las, como preconiza o SUS. “Em 2020, o Saúde da Família chegaria a todos os bairros, só faltava o São Judas e Vila, mas por causa da pandemia os recursos foram remanejados. Felizmente, Itajaí sempre investiu além do estipulado no orçamento em saúde e educação”, elogia.
Bolsa de estudo
Paulina começou sua formação acadêmica através de uma bolsa de estudos no Colégio São José, onde a mãe ensinava matemática. Ela conta que a família sempre fez questão de oferecer o melhor em termos de educação. Não à toa, muitos parentes optaram pelo concurso público, que evita arbitrariedades motivadas pelo racismo estrutural. “Sempre tive o respeito dos colegas, mas de alguns pacientes não. Certa vez, um senhor me chamou de macaca e quis me agredir, acabamos na delegacia”, recorda.
Paulina fez vestibular para a UFSC e Univali e passou nas duas provas. Mas a vontade de morar na capital foi brecada pela mãe, já que precisava trabalhar e o curso era em tempo integral. “Na época, fiquei chateada, mas não me arrependo. Nasci e morei a vida toda em Itajaí. Quando estava na Praia Brava com meu namorado, comentei como somos abençoados por viver aqui”, elogia.
Paulina cresceu numa casa popular na rua Jorge Mattos, no centro, feita para operários da fábrica de tecidos Tecita, onde a mãe começou a trabalhar aos 13 anos. A avó era benzedeira e aprendeu a costurar observando as roupas que lavava para a costureira, que se negou a lhe ensinar o ofício. “Somos uma família de mulheres fortes. Minha tia Conceição foi pioneira no movimento negro, minha mãe cursou faculdade nas férias em Chapecó. E minha filha se formou advogada. O que queremos corremos atrás e sempre apoiando os nossos porque, apesar de sermos 56% da população, mais de 80% vivem na pobreza”, justifica.

Saúde da mulher
Quando precisou escolher um tema de especialização, optou pela saúde da mulher negra que, segundo ela, não tem causas genéticas, e sim, sociais. “A principal razão do povo negro morrer cedo são as condições precárias: trabalho pesado, pouco lazer, baixos salários e sob extrema violência”, alega a enfermeira, que não acredita em meritocracia. “Políticas públicas de inclusão são necessárias por causa da forma como foi feita a abolição, sem plano algum para dar suporte à imensa massa que ficou sem casa e sem trabalho”, afirma.
E para recuperar as energias depois de um ano cheio de desafios, ela reúne a família em Cabeçudas para cantar, dançar e celebrar. “Meu avô sempre nos levava para fazer oferendas a Iemanjá e molhar os pés para começar bem o ano. É o nosso momento de reverenciar a ancestralidade, nos acarinhar e nos curar como num quilombo, para então voltar para este mundo que não foi feito para nós, mas que é nosso também”, conclui.

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