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Itajaí

Escola mais antiga da cidade completa

Cem anos de educação

Redação DIARINHO [editores@diarinho.com.br]

Por James Dadam

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Fotos: Arquivo Histórico



Presente e passado se encontram hoje na rua mais popular de Itajaí. Alunos, professores, funcionários, ex-alunos, mestres aposentados e comunidade vão percorrer os cerca de 500 metros entre a igrejinha da Imaculada Conceição e a casa da Cultura Dide Brandão para comemorar o cen­tenário do antigo grupo Escolar e atual escola de Ensino Médio Victor Meirelles.

A festa é dupla. A comemoração é pelos 100 anos da instituição da escola, mas também celebra os 100 anos do edifício, antiga sede do educandário, que atualmente abriga a casa da Cultura. O desfile inicia às 10h30, nas proximidades da igrejinha velha, e segue em direção à avenida Mar­cos Konder.

A inaugu­ração do gru­po Escolar, há 100 anos, foi um evento de grande importância para Itajaí. Tão grande a ponto de o governador do estado, Vidal Ramos, ter se deslocado até a cidade para participar do evento, que dava início a um novo modelo educacional no estado.


No início no século passado, Itajaí tinha pouco mais de 15 mil habitantes. O fato de ter sido escolhida para receber um dos primeiros grupos escolares construí­dos em Santa Catarina a colocava entre os municípios mais importantes do estado, seja do ponto de vista geográfico, já que era porto de entrada e saída para as cidades do Vale, seja por questões políticas, pois contava com um padrinho ilustre: o itajaiense Lauro Müller, na época ministro das Relações Exteriores.

A chegada do governador na cidade levou para o cais da praça, segundo o jornal “O Pharol”, de 5 de dezembro de 1913, uma “enorme multidão”. Como na época as estradas eram praticamente inexistentes, a maioria das pessoas, assim como as mercadorias, eram transportadas por via marítima e fluvial. E foi pelo mar que o governador chegou, a bordo do navio Orion, às 9h do dia 4 de dezembro de 1913.

Entre os que esperavam pela chegada de Vidal Ra­mos, estavam os alunos e as alunas da escola, que naquele dia estreavam os novos uniformes de cor branca. Às 16h, o governador seguiu para o imponen­te grupo Escolar, construído no centro da cidade e de­corado com bandeirinhas para a inauguração. O local estava cheio de famílias, pais e autoridades.

A cerimônia contou com a participação ativa de muitos alunos. Como a República, proclamada em 15 de novembro de 1889, ainda engatinhava, o sentimen­to patriótico e de respeito às instituições era extrema­mente forte. Inicialmente, os alunos do 2º ao 4º do que seria o atual ensino fundamental cantaram o hino de Santa Catarina. Depois, Zilla Heusi apresentou o monólogo “As bonecas” e Maria Carolina Soares de­clamou a poesia “Os pequeninos”. A seguir, as alunas das turmas do 2º ao 4º ano cantaram “A primavera” e Erothides Araujo apresentou o monólogo “Quando eu namorar”.

A bandeira nacional foi o tema do diálogo propos­to pelos alunos Clara Seara, Judith Liberato, Nelson Miranda, Cesar Lins e Renato Müller. Em sequência, Virginia Schimidt declamou “A borboleta” e Clara Pe­ressoni e Elsa Schneider apresentaram o diálogo “O carvão”.


Terminadas as apresentações culturais, todos os alunos cantaram o hino nacional e as meninas do 4º ano realizaram uma apresentação de ginásti­ca; a cerimônia passou, então, para os discursos. O primeiro a falar foi o professor Orestes Guima­rães, inspetor geral de ensino no estado e responsá­vel pela implantação dos grupos escolares. Depois dele, conta “O Pharol”, falaram diversas alunas. Só depois é que o governador discursou, declarando inaugurado o grupo Escolar Victor Meirelles, o sex­to em Santa Catarina.

Vidal Ramos passou a noite em Itajaí. O salão do Grande Hotel foi palco de um banquete que reuniu inúmeros políticos e personalidades locais. A ani­mação ficou por conta da banda do corpo de segu­rança, que veio especialmente de Florianópolis para os festejos, que no final da noite ainda tocou parte do repertório no coreto da atual praça Vidal Ramos.

Governador e comitiva retornaram a Florianópo­lis no dia 5 de dezembro de 1913, a bordo do vapor Anna, mas deixaram na cidade um novo conceito e um novo modelo de ensino, tornando Itajaí referên­cia regional em educação.


Uma cidade em transformação

O Brasil no início do século passado vivia a eu­foria do movimento republicano, que pregava o desenvolvimento e o progresso, que junto com a ordem está presente no lema da bandeira nacional. A ideia era que, para se tornar um país moderno e civilizado, era necessário superar os atrasos herda­dos do Império, implantando um novo modelo de desenvolvimento, muitas vezes copiado dos países europeus.

Em Itajaí, os efeitos deste pensamento começa­ram a ser sentidos anos antes da inauguração do grupo Escolar Victor Meirelles. O historiador Eu­clides José da Cruz, do centro de Memória e Do­cumentação Histórica de Itajaí, conta que a cidade passou por diversas mudanças naquele período, como a construção de novas ruas e o alargamento das poucas já existentes.

O conceito de desenvolvimento urbano republi­cano exigia planejamento e estabelecia regras para a organização espacial da cidade. Era preciso retirar do centro e levar para a periferia tudo aquilo que não fosse considerado adequado, como o cemité­rio, que na época ficava onde atualmente é a igreja Matriz do Santíssimo Sacramento.

Euclides conta que, em 1911, um conselheiro da cidade propôs a transferência do cemitério para o bairro Fazenda. A inauguração do novo campo-san­to para os mortos aconteceu apenas em 1930, e a transferência das ossadas muitas vezes era feita pe­los próprios familiares, que desenterravam os entes queridos e os levavam, de carroça e até de carrinho de mão, para a nova sepultura.

Entre as modernidades da época, a energia elé­trica chegou em 1909, aposentando velas e lam­parinas a óleo. Em 1911 o fornecimento de luz foi ampliado para várias partes da cidade. As mudan­ças eram gigantescas e revolucionaram o compor­tamento da população local, que em 1913 testemu­nhou a chegada do telefone.


O progresso era evidente, mas a cidade não pos­suía dinheiro para realizar tudo o que era aspirado pelo ideal republicano, principalmente em 1911, quando uma grande enchente atingiu o município.

Muitos projetos ficaram apenas no papel, como a construção de um novo hospital mais centralizado, pois o hospital Santa Beatriz ficava na estrada de Cabeçudas, ou da linha de bonde, que iria ligar o centro da cidade a Cabeçudas e às localidades mais afastadas no interior do município. O serviço che­gou a ser concedido em 1913 a Arthur da Silva Valle, pelo período de 60 anos, para a implantação de um sistema de transporte movido a tração animal, va­por ou eletricidade. O projeto nunca foi executado.

Em 1912, ano de criação do bairro de Navegantes, que mais tarde se emanciparia de Itajaí, o municí­pio doou ao estado o terreno para a construção do grupo escolar. O terreno deveria ser central, porque no ideário republicano a educação deveria estar ao centro da vida social, tanto que foi em torno do gru­po escolar que mais tarde, em 1925, surgiria a sede da prefeitura, do legislativo e do judiciário: o palá­cio Marcos Konder. Entre os dois prédios, a praça da República, atual governador Irineu Bornhausen.

A construção do grupo escolar foi um marco na história local. “Itajaí entrou na modernidade e se transformou. A rua Hercílio Luz se tornou a mais importante da cidade e vários edifícios públicos fo­ram construídos na região. Pessoas de outras cida­des passaram a estudar aqui”, conta Euclides.

Ele diz que o fato de Itajaí ter sido uma das seis cidades escolhidas para sediar um grupo escolar re­força a importância do município já naquela épo­ca, não somente pela economia e por ser um porto de elevado trânsito de passageiros e produtos, mas também pela influência política. “Itajaí é o berço de nascimento de Lauro Müller, um padrinho muito importante que a cidade teve”, explica.

Foi Lauro Müller o responsável pelo batismo da es­cola. A princípio, o grupo escolar iria se chamar Luís Delfino, em homenagem ao médico, político e poeta catarinense, falecido em 1910, mas a cidade sugeriu colocar o nome do governador Vidal Ramos.

A cidade de Lages, berço do governador, também foi escolhida para receber um grupo escolar, acabou fican­do com o nome de Vidal Ramos. Foi então que Lauro Müller enviou uma carta ao governador, lembrando-o do nome do pintor catarinense. Ministro das Relações Exteriores, o itajaiense era muito respeitado. “Nin­guém ousava ir contra Lauro Müller. O que ele falava era lei”, conta Euclides, que assina um dos capítulos do livro “Grupo Escolar Victor Meirelles – 100 anos de Educação”. Organizado pelo secretário de Educação de Itajaí, Edison d’Ávila, o livro será lançado na quarta­-feira, dia do centenário, às 20h, na casa de Cultura Dide Brandão, antiga sede do grupo. Mais tarde, às 21h, o cantor Zé Geraldo faz o show do centenário, no calçadão da casa da Cultura.

Educação para o progresso

No final do Império, a taxa de analfabetismo no Brasil era elevadíssima. Os republicanos acreditavam que apenas alcançariam o nível ideal de progres­so se o país tivesse uma população preparada para os desafios dos novos tempos. “A República precisava de algo para formar bons cidadãos para se chegar à tão sonhada modernidade”, explica o historiador e artista plásti­co Agê Pinheiro, diretor do museu Histórico de Itajaí e curador da mostra “Ensino de Gigantes”, que será aberta na terça-feira, às 20h30, para comemorar o centenário do Victor Meirelles.

A construção dos grupos escolares em Santa Catarina fazia parte de um projeto que ficou conhecido como reforma Orestes Guimarães. Após reformar a educação no estado de São Paulo, o professor Guimarães foi convidado pelo governador Vidal Ramos para dar início a uma nova escola em Santa Catarina.

Até então, o que existiam eram escolas iso­ladas, nas quais os alunos de diferentes idades estudavam juntos, ou escolas particulares, que muitas vezes funcionavam na casa dos próprios professores.

Como novidades, a nova escola introduziu diferentes séries, num total de quatro, de acordo com a idade e o progresso dos alunos. Também foram instituídos programas de ensino, disciplinas, laboratórios de desenho, química, matemática, aulas de música e ginás­tica. Cada turma tinha a própria sala de aula, e a escola era dividida em duas alas, uma para os meninos e outra para as meninas. Quem passa pela rua Hercílio Luz ainda pode ler hoje, no alto da cada da Cultura, a inscrição “Secção Masculina” e “Secção Feminina”.

O prédio tinha que ser imponen­te para representar a importância da escola. Os móveis vinham dos Estados Unidos e de São Paulo e eram preparados com a preocupa­ção de oferecer conforto aos alunos. As carteiras eram de ferro fundido e, na ala feminina, havia uma proteção na frente, pois o uniforme feminino obrigava o uso de saias.

Mas talvez a maior revolução tenha sido a introdução do método intuitivo. As aulas não se limitavam apenas à memorização de concei­tos. Tudo deveria ser vivenciado pelo aluno. “A aula de matemática não tinha só as equações. A prática era vivenciada com saídas em campo, para contar porcos, por exemplo”, explica Agê. Acima de tudo, a esco­la da república buscava ensinar a saber querer. “A criança era preparada para, quando adulto, saber o que quer da vida. Ela tinha que saber querer”, ressalta.

Outra novidade foram os inspetores, que fiscalizavam a frequência escolar de todas as crianças de sete a 14 anos. Os pais que não mandavam os filhos à escola estavam sujeitos a multa. O objetivo da medida era garantir a formação de uma nova geração de cidadãos “civilizados”, de acordo com os ideais da Re­pública. Para facilitar a vida das famílias com poucos recursos, era permitido comparecer às aulas sem sapatos, como publicado no jornal O Pharol, em abril de 1914. Nele, o diretor do grupo escolar, Henrique Midom, comunica que os alunos podem ir às aulas descalços, desde que as roupas e o corpo estejam limpos.

Driblar as dificuldades financeiras de alunos sempre foi uma missão para diretores. A professora Loni Lygia Kobarg Cercal, 84 anos, foi diretora do Victor Meirelles por 28 anos. A menina que sempre desejou ser professora e que foi aluna de Antonieta de Barros, primeira mulher a fazer parte da Assembleia Legislati­va, conta que o dinheiro enviado pelo estado era curto, e para garantir uniformes de tergal e livros para todos contava com o apoio dos pais, que organizavam quermesses e ativida­des para angariar fundos. “Naquela época, os pais tinham mais tempo para a escola, e todos colaboravam. Para o desfile de 7 de setembro, todos os pais mandavam os filhos impecáveis. Sou muito grata a todos eles. Do Victor Mei­relles saíram muitas pessoas de sucesso, com muitos títulos, mas o importante é que todos saíram como bons cidadãos, bons pais, bons profissionais”, diz, orgulhosa de ser professora e do dever cumprido.




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