No meio da tarde de ontem, dona Elisabete Kratz, 63 anos, que mora numa casa do outro lado da rua, a cerca de 100 metros de onde residia a irmã Elita, estranhou quando viu tudo em silêncio por lá. Chamou, gritou e não foi atendida. Ficou preocupada e logo falou para o marido que tinha alguma coisa de errado. Como o muro da casa da irmã é alto, pegou uma escada e resolveu pular. O marido até tentou impedi-la, já que ela havia saído do hospital na segunda-feira, depois de uma cirurgia. Ela não obedeceu. Seu sexto sentido falava que existia algo errado.
Continua depois da publicidade
Quando dona Elisabeth pulou o muro, já viu sangue espalhado perto da porta dos fundos. Olhou para a frente e viu um pé de chinelo da irmã, perdido, cheio de sangue. O coração acelerou. Entrou pela porta arregaçada e viu mais manchas vermelhas. Era sangue espalhado por todos os lados, e a casa estava toda revirada. O único sinal de vida na casa era do cachorrinho de estimação da família.
A partir daí, o que já era desesperador virou uma cena de horror. Foi ao chegar no quarto que dona Elisabeth se deparou com a cena: a irmã e a sobrinha estavam estiradas sobre uma cama, praticamente sem roupas. Os rostos, perfurados e avermelhados pelo sangue, denunciavam a parte do corpo mais atingida pelos golpes.
Mesmo com todo o choque, dona Elisabeth teve forças de voltar para casa e avisar a polícia. Também ficou com a triste tarefa de avisar o sobrinho Roberto, que mora em Blumenau, de que a mãe e a irmã haviam sido trucidadas. O que posso dizer de uma coisa dessas? Foi horrível, não tenho nem o que falar, disse ao final da tarde ontem, no resto de força que lhe restava.
Para a polícia, ladrões mataram pra roubar
Para cometer o bárbaro crime, o assassino (ou os assassinos) usou os espetos que haviam sido utilizados pra assar carne durante um churrasco na terça-feira. O instrumento já foi encontrado pela polícia. Depois de matar as coitadas, o criminoso teria lavado o espeto, provavelmente para não deixar as digitais. Ele só não conseguiu desentortar a peça, contorcida depois de trucidar as duas mulheres, informou o agente Allan Coelho, responsável pela depê de Penha.
Pelo que a perícia apurou, as mortes rolaram por volta das 3h da madruga. Os suspeitos, afirmou Allan Coelho, são um casal de amigos que passaram o dia anterior com Márcia e dona Elita. Eles seriam de São Paulo e conheceram as mulheres há cerca de um mês, contou um familiar.
A primeira teoria da polícia para o crime é latrocínio, que é quando o ladrão mata pra roubar. Elisabete revelou aos tiras que a irmã costumava guardar dinheiro dentro de casa. O policial contou que uma televisão de 42 polegadas tinha sido arrancada da parede e estava na porta da sala. Para ele, isto é indício de que os assassinos estavam ali para roubar. Além disso, um cofrinho cheio de moedas estava no carango da família. Soubemos que o cofrinho nunca ficava no carro. Acho que eles tentaram sair com o carro, mas como a chave estava escondida no quarto de Márcia, não encontraram e desistiram, arriscou dizer.
Até ontem, o agente Allan Coelho não tinha como dizer se houve crime sexual. Isso porque, segundo ele, a situação em que as mulheres foram deixadas dificulta a confiabilidade dos exames.
Continua depois da publicidade
Morava há seis meses em Penha
A aposentada Elita tava muito feliz. Em maio, tinha trocado a casa de Blumenau com a do filho Roberto, no Mariscal, pois queria ficar próxima da irmã Elisabeth, que mora na mesma rua. Na terça-feira, a filha Márcia, que trampava no restaurante Capitão do Mar, em Balneário Piçarras, estava de folga e aproveitou para fazer um churras com um casal de amigos que veio de São Paulo. Uma pessoa próxima da família contou que dona Elita e Márcia tinham conhecido o tal casal há cerca de um mês.
O churrasco rolou entre músicas e risos. Pelo menos foi o que contou dona Elisabeth, que lá pelas 16h da terça foi até a casa da mana. Todos estavam felizes. Me ofereceram um pedaço de carne. Peguei e fui embora, contou.
Continua depois da publicidade
Elisabeth não imaginava que aquela seria a última vez que veria a irmã e a sobrinha com vida. Na manhã de ontem, ela saiu com o marido para fazer exames. Viu a casa de Elita fechada. Quando voltou, viu tudo do mesmo jeito e ficou preocupada. Por isso, decidiu entrar na baia à tarde.
A amiga Carmem Roiter, 65, se considerava irmã de Elita. Estava ontem entre os parentes e amigos que, abismados e chocados, perambulavam pela frente da casa onde o assassinato aconteceu. Eram duas pessoas felizes, que não faziam nada de mal pra ninguém, comentou, sem entender a razão de tanta brutalidade.
Ela contou que uma vizinha viu o Ford Ka de cor bordô do casal de amigos, que no dia anterior tinha participado do churrasco, passando pela frente da casa das vítimas por volta das 8h30 da matina de ontem. Eles passaram, foram pra frente e pra trás, olharam mas não chegaram. É estranho, disse.
Continua depois da publicidade