Passava das 22h e a festa da primeira comunhão da sobrinha da auxiliar fiscal Queila Suzana Matias, 36, bombava. Cerca de 50 convidados e mais de uma dúzia de crianças brincavam na garagem da casa número 441 da rua Monte Orizada. Os convidados mal tinham acabado de jantar quando viram três homens jovens e armados invadirem o local. Sem dizer uma palavra sequer, um dos carinhas caminhou na direção de Félix e puxou a corrente de ouro que ele ostentava com orgulho. A joia é de ouro maciço e tem a espessura de cerca de uma polegada. O bandido não conseguiu tirar o apetrecho e isso causou o primeiro dos três disparos que levaram os convidados ao desespero. Todo mundo deitou no chão, eu corri pra dentro de casa e quando olhei de novo o seu Félix estava andando em direção a um sofá pedindo ajuda, conta Queila.
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A bala acertou em cheio a virilha esquerda de Félix e outro tiro passou de raspão no pescoço. Sangrando, o aposentado andou alguns metros e ainda conseguiu pedir socorro, em vão. Ele disse: me ajuda, não me deixa morrer, mas não tinha como ajudar, foi horrível, narra Queila, que está grávida de quatro meses e precisou ser atendida pelos socorristas do Samu porque ficou nervosa e teve a pressão alterada. Entrei em desespero, tinha muito sangue, eles o ajudaram a sentar no sofá, mas logo ele morreu, bem aqui, diz, apontando pro lugar onde estava o sofá, no lado da porta de entrada da casa onde mora. Além de Félix, outras duas pessoas ficaram feridas durante o assalto.
José Cláudio Maia Branco, 56, avô da menina que comemorava a primeira eucaristia, foi atingido na perna depois de quebrar uma cadeira em cima dos bandidos. Outra convidada, a policial militar ambiental Jurema Klanovicz, 28, foi ferida com um tiro de raspão nas costas. Ambos foram levados pro hospital Ruth Cardoso, mas foram liberados e estão bem.
Fugiram a pé
Enquanto os convidados da festa tentavam, em vão, salvar a vida de Félix e ajudar os feridos, os três assaltantes fugiram diapé. Entraram e saíram a pé, ninguém viu se havia algum carro ou moto esperando por eles, informa Queila. Segundo ela, há suspeita de que os bandidos tenham passado várias vezes em frente à casa antes de meterem o assalto. Queila diz que a família não conseguiu pregar o olho depois do que viu. Eles até pensam em vender a casa e ir embora de Camboriú. Ouvia falar de coisas que aconteciam em volta, no bairro, mas nunca tinha presenciado. A gente está horrorizado com tudo o que aconteceu, fala.
Ainda assustada, ela conta que a casa toda ficou suja de sangue. Os convidados pisavam no sangue e entravam em casa, o pessoal fez um mutirão e limpou pra mim, mesmo assim não quis dormir aqui não, fala.
Viúva quer justiça
Ainda em estado de choque, a viúva Sirlei Pereira da Silva, 50, diz que não acredita no que está passando. Pra mim ele está dormindo, a ficha ainda não caiu, desabafa. Sirlei estava do lado do marido quando tudo aconteceu. Ela conta que o bandido foi direto na corrente, sem dizer uma palavra. O marido, segundo ela, não teve reação alguma. Ele (assassino) não conseguiu puxar e deu o tiro, eu empurrei, mas não adiantou, fala. Ainda atordoada, Sirlei diz que não consegue se lembrar dos detalhes, mas quer ver os assassinos do companheiro atrás das grades. Ele era uma pessoa do bem, eu quero justiça, diz.
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Casada há 21 anos com Félix, a dona de casa desconfia que os bandidos tavam manjando o esposo há algum tempo. Ela fala que Félix colocou a corrente no pescoço durante a tarde de sábado e saiu pelo Monte Alegre duas ocasiões antes da festa: foi comprar o presente pra vizinha e ao supermercado, perto de casa, comprar leite condensado pra esposa preparar uma sobremesa. Eu ainda dizia pra ele não usar aquela corrente, lamenta.
Sirlei conta que a joia era um sonho antigo do marido. Ele juntou peças de ouro durante a vida toda e mandou fazer o apetrecho há pouco mais de dois anos. Segundo a mulher, ele não usava todo dia, mas volta e meia expunha o correntão dourado nas redondezas. O sobrinho da vítima, Ricardo da Silva Porto, 35, diz que todo mundo sabia que a corrente do tio era valiosa. Eu calculo mais de 25 mil reais, solta. O rapaz diz que sempre que via o tio com a joia o avisava do perigo de usar o chamariz de bandido no pescoço. A minha mãe também sempre dizia: não usa essa corrente, vende ela, mas ele respondia que gostava de usar porque era bonita, conta.
Pra ele, pra viúva e pros amigos que presenciaram a cena macabra, não resta dúvidas de que os bandidos só invadiram a festa da menina pra roubar a correntona.
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Caso vai ser investigado pelos tiras da DIC
Até agora o que a polícia sabe é que os bandidos que invadiram a festinha de primeira comunhão são jovens, aparentam ter pouco mais de 18 anos. Os convidados descreveram que um deles estava de boné e com o carão à mostra. Outro estava com metade do rosto coberto por um pano e o terceiro de capuz.
O delegado de Camboriú que estava de plantão na noite do crime, Rodrigo Coronha, diz que vai pedir todas as imagens das câmeras de segurança instaladas na rua Monte Bandeira, local mais próximo de onde rolou o crime, pra tentar verificar em que veículo os assassinos fugiram. As imagens serão anexadas ao inquérito que será encaminhado hoje pra divisão de Investigação Criminal (DIC) de Balneário Camboriú.
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Pra Coronha, essa história está pra lá de estranha. Geralmente os crimes têm relação com o tráfico de drogas e nesse caso, não, comenta. Latrocínio, que é roubo seguido de morte, é minoria nos casos investigados em Camboriú. A grande maioria dos assassinatos tem motivação ligada ao tráfico de drogas, explica o dotô. Com esse, sobe pra 25 o número de assassinatos na Capital da Pedra só este ano.