Colunas


Coluna Animal Humano

Por Coluna Animal Humano -

Parafraseando Clarice Lispector...


A GENTE SE ACOSTUMA

 

Bora virar assinante para ler essa e todas as notícias do portal DIARINHO? Usuários cadastrados têm direito a 10 notícias grátis.


Esqueci minha senha




Se você ainda não é cadastrado, faça seu cadastro agora!


 







 





Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a ver crianças descalças na rua. E, por estarem descalças, a gente se acostuma com a sujeira em seus rostos. Como estão sujas, nos acostumamos com suas roupas rotas e rasgadas. E porque não olhamos com atenção, não vemos a magreza de seus braços. E nos acostumamos a vê-las desse modo, vendendo balas nas sinaleiras e pedindo dinheiro. E aceitando como se fosse normal, nem reparamos em seus olhos tristes. E, à medida que nos acostumamos com essas imagens, começamos a achar normal crianças sem infância.

A gente se acostuma a ver pedintes nas ruas. E se acostuma com eles pedindo nas sinaleiras. E, pela agressividade de uns, julgamos todos iguais. E, por termos medo, não conseguimos distinguir o necessitado do malandro.  E, vendo eles de longe, já se acostuma em fechar os vidros. E, fechando o vidro, se acostuma a fingir que eles não estão ali. Fingindo que eles não estão ali, achamos que o problema não existe. O problema não existindo, ele não precisa de uma solução.

A gente se acostuma a encontrar pessoas dormindo nas calçadas. E, dormindo nas ruas, achamos normal viver assim. E não nos preocupamos com o frio que passam nas noites de inverno. E nem pensamos no desconforto que sentem em não ter um abrigo ou um lugar para tomar um banho. E nos acostumamos a vê-los pelas ruas da cidade, andando em grupos. E, como andam em grupo, estão em maior número. E nos acostumamos a temer uma abordagem. E, por ter medo, atravessamos a rua. E, atravessando a rua, simplesmente olhamos para o outro lado. Olhando para o outro lado, podemos esquecer do medo e das pessoas na rua.

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

Esse texto dedico a uma pessoa que, em sua vida, ajudou muitas outras, e que, com seu coração enorme, nunca se acostumou. D. Jenny Liberato

 

Morar em apartamento de fundos e não ter vista que não sejam as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a ligar mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, se esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E,  não aceitando as negociações de paz, aceita a ler todo dia sobre a guerra, os números, e sua longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir, no telefone: “Hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e de que se necessita. E a lutar para ganhar para ter como pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que, cada vez, pagará mais. E a procurar mais trabalho para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e a ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.

Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se, no fim de semana, não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Comentários:

Deixe um comentário:

Somente usuários cadastrados podem postar comentários.

Para fazer seu cadastro, clique aqui.

Se você já é cadastrado, faça login para comentar.

Leia mais

Coluna Animal Humano

Intolerância e radicalismo

Coluna Animal Humano

Cidade que te quero verde

Coluna Animal Humano

A cidade dentro de nós

Coluna Animal Humano

Volta às aulas presenciais

Coluna Animal Humano

A cúpula do clima e nós

Coluna Animal Humano

Lixo - um problema nosso

Coluna Animal Humano

Pra não dizer que não falei de flores - 2

Coluna Animal Humano

A ponte

Coluna Animal Humano

Cenários e pressupostos

Coluna Animal Humano

Qual será o novo futuro – a mudança!

Coluna Animal Humano

As Marias

Coluna Animal Humano

O teto de cada um

Coluna Animal Humano

Para onde vais... quo vadis...

Coluna Animal Humano

Empresário: vamos adiante!

Coluna Animal Humano

Qual a melhor hora para se doar...

Coluna Animal Humano

O ser solidário

Coluna Animal Humano

A constante mudança

Coluna Animal Humano

Dia mundial das crianças vítimas de agressão

Coluna Animal Humano

O que você já deixou de fazer por ser mulher?

Coluna Animal Humano

Amor de bicho



Blogs

A bordo do esporte

Tóquio 2020: Brasileiros com bons resultados na vela

Blog do JC

Se presidente vetar o Fundão, Centrão defende volta de doações empresariais

Blog da Ale Francoise

Dê olho na sua saúde!

Blog Doutor Multas

Proteção veicular: o que é e vale a pena contratar?

Blog Clique Diário

Retornando...

Blog da Jackie

CasaCor Santa Catarina

Blog do Ton

One of a Kind: coleção inédita será apresentada pela joalheira Cristina Pessoa durante evento na Praia Brava

Bastidores

Um olhar sobre o teatro de escola



Entrevistão

Jorginho Mello

“Eu tenho o compromisso do presidente: se eu for disputar a eleição para governador, tenho o apoio dele”

André Gobbo

"Eu tenho absoluta certeza que estamos formando profissionais para o presente e para o futuro”

Vinicius Lummertz

"A grande aliança é para a retomada com saúde. São Paulo fará vacinas para o Brasil e América Latina ”

Élcio Kuhnen

“O maior ensinamento que a covid vai deixar: a ciência está muito à frente da sua opinião”

TV DIARINHO

Confira os destaques desta segunda-feira



Podcast

Minuto DIARINHO 26/07/2021

Publicado 26/07/2021 21:05


Especiais

Referência

Balneário Shopping é porta de entrada de grandes marcas

Boas compras

Diversidade e qualidade caracterizam o comércio de Balneário Camboriú

Uma nova BC

Investimentos públicos pesados para a retomada da economia

Cartão postal de Balneário Camboriú

Roda-gigante mudou a paisagem para sempre

Parque Unipraias

Tedesco é pioneiro no turismo de BC



Hoje nas bancas


Folheie o jornal aqui ❯