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Por Coluna esquinas -

Dentro da noite


A infinda tentativa da ciência em determinar quando nossos comportamentos são hereditários ou se fomos adquirindo culturalmente é uma árida ressaca lá do século XIX e, penso eu, já deveria estar superada. Fiquei ruminando o assunto nas semanas que passamos diante de tantos horrores que temos presenciado.

 

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E hoje preciso gritar ao ouvir atrocidades ditas por negacionistas após tantas mortes. Claro, não mudei de ideia sobre o tema. Não confio em discursos que naturalizam a violência física ou discursiva.

Atento aos sinais humanos, tenho tido sustos. Em outros tempos, iriamos aceitar um comentário nojento do presidente do país após tantas mortes? Essas mortes são o resultado de necropolítica que nos é visível pelo negacionismo, negligência e sabotagem de um governo que continua achando que tudo gira em torno deles. No ponto de vista – deles - até o vírus foi criado para derrubar esse arremedo de presidente.

Estamos chegando em 270 mil mortos no país e a 380 mortos na cidade de Itajaí. Temos professores  e alunos infectados após volta às aulas na cidade. E o cara vem com essa:

“Chega de frescura e mimimi. Vão chorar até quando?”

Ouço absurdo de que mortes são da natureza humana, fazer o que? A sociedade, diante disso, pode ser inocentada? É tranquilizador fazer análise via redes sociais ou tomar ansiolíticos e não assumirmos culpas. Mas vamos ser bem pragmáticos:

Culpados são os que votaram nesse atropelo. Culpados são os que dizem que votaram no candidato de sapatênis. Culpada é a mídia que criou essa monstruosidade e nós ficamos nos digladiando sem saber como exterminar essa praga.

Foi em uma noite da semana que passou, após um dia exaustivo de trabalho, que professores e funcionários públicos gritaram alto sem usar uma palavra qualquer. Só velas, choro e uma carta em desespero.

Um silêncio se fez nas portas da prefeitura da cidade. Velas silenciaram as vozes. Velas iluminaram as portas do erário público que autorizou a abertura de escolas. Velas deixaram à mostra as lágrimas de colegas professores que choravam a morte dos seus e pediam, em silêncio, que a vida continue a pulsar mesmo diante da força da grana que define políticas às portas fechadas.

E, depois da noite, não se ouviu uma reação sequer daqueles que podem dizer NÃO aos apelos desesperados de donos de escolas que escutam o tilintar de moedas ao invés do coração que teima em pulsar.

Dentro da noite, os políticos não são pardos. Tem cores e já escolheram seu lado. Parece que nós não estamos nele.

Fica a dica:

Os livros de Achille Mbembe (é um filósofo, teórico político, historiador, intelectual e professor universitário camaronês). Diz ele: “A era do humanismo está terminando. A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização.”


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