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Por Coluna esquinas -

Bolhas


Penso todo o dia sobre isso, mas não tenho soluções mágicas ou saídas que sirvam de conselhos. O fato é que ando mais uma vez decepcionado com os humanos.  Para quem gosta e estuda história, não é novidade que somos a pior praga do planeta e estamos observando, em plena pandemia, que andamos mesmo muito doentes. Carentes de humanidades.

Mas muita gente que se indigna  com comportamento distantes no tempo ou no espaço. Vejo comentários que se irritam com a escravidão colonial para, noutro dia, falar mal dos haitianos que “ocupam” o país. Ouço pessoas que facilmente se emocionam com uma reportagem sobre exploração infantil no outro lado do mundo, mas se mostram completamente insensíveis com crianças que pedem comida na porta do supermercado. Já discuti com alguém que acha perfeitamente normal negar a ciência hoje e cita Albert Einstein, Stephen Hawking, Marie Curie ou  Nise da Silveira em suas redes. Não me surpreendo mais quando acham justificativas para atos do atual governo federal e se emocionam com filmes antifascismo.

Vejo postagens de pessoas que, felizes, divulgam livros comprados na Amazon sem se perguntar sobre lucros bilionários dos donos ou da exploração (beirando à escravidão) de seus funcionários ao mesmo tempo em que lamenta que livrarias da sua cidade estão fechando as portas. Olha lá longe e não vê o que está em seu bairro.

O fato é que andamos fuçando nas redes sociais e permitimos que nossas casas sejam invadidas por conteúdos sensacionalistas que apelam para argumentos sem provas que nos dão a falsa ideia de que estamos sendo constantemente informados.  Essas informações, que não se conectam, tem uma forte carga emocional e radical que nos oferecem a clara sensação de que somos nós –e só nós – que temos a verdade. E, claro, nos achamos no direito de xingar e vociferar contra quem ousar dizer ao contrário.

Uma bolha fala mal de outra que fala mal de outra que por sua vez fala mal de outra.  Estamos sendo fragmentados e, bem sabemos na história, que esse é um primeiro passo para dominar. Um cunhado não recebe as mesmas informações que eu recebo em minhas redes. Meu vizinho de porta recebe noticias e produtos direcionados ao perfil dele. Meu irmão tem informações que eu não tenho sobre a pandemia ou sobre a política nacional.

O algoritmo cria filtros nos sites de relacionamento e um sistema de crenças nos impulsiona em direção ao que nos conforta e satisfaz. A acomodação sempre foi e é mais fácil de nos adaptarmos. Essas bolhas afetam o modo como pensamos e aprendemos e tem colocado em crise algum fundamental para o bem viver: o diálogo.

Falei inicialmente que não tenho conselho para resolver isso, mas gosto de relembrar uma brincadeira antiga chamada telefone sem fio. Lembram?

Nada se espalha melhor do que um boato. Ou atualizando, nada se espalha melhor do que uma fake News.  Cada conto espalha um ponto. Fofocas vão longe, os fofoqueiros não.

P.s.: tenho perdido muitas pessoas queridas que vivem em outras bolhas. Isso sim me entristece.


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