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Coluna Existir e Resistir

Por Coluna Existir e Resistir -

Existir e Resistir


Eu começo este cordel

Recorrendo ao dicionário

Pois o tal livro reflete

Um saber reacionário

Já que o significado

Do verbete ali mostrado

É antigo e ordinário.

Tomarei como um exemplo

A palavra de “mulata”

Revelada a sua origem

Que me fez estupefata

Pois compara com jumento

Com racista entendimento

A gente miscigenada.

Se você não conhecia

Eu lhe posso explicar

Que mulata se dizia

Com o fim de debochar

O termo pejorativo

Era depreciativo

Sem noção de respeitar.

É chamado de mulato

Aquele que é misturado

Um dos pais é de cor negra

Sendo o outro branqueado

Mas a miscigenação

No início da nação

Foi um mal desnaturado.

Nunca foi caso de amor

Como se pode alegar

Era caso de estupro

Que à negra ia abusar

O senhor da Casa Grande

Mui cruel e dominante

Pronto pra violentar.

E além dessa faceta

Existiu branqueamento

Como oficial medida

Para o tal clareamento

Com o fim de exterminar

De pra sempre eliminar

O negro do pensamento.

Essa torpe intenção

Que visava misturar

A cor negra e a branca

Até por fim conquistar

Um final clareamento

Jogando no esquecimento

A cor preta a incomodar.

É verdade que hoje em dia

No Brasil é proibido

O racismo já é crime

Mas não é nada escondido

Pois a imagem da mulata

Hoje ainda nos relata

Tal racismo aludido.

É possível ainda hoje

Um ditado se escutar

Se o pai é homem preto

E com branca se casar

Todos rezam pra nascer

Um bebê pra condizer

Que à mãe deve puxar.

Se tiver a pele clara

Mas cabelo encrespado

Sendo meio “moreninho”

E com nariz achatado

Vai sofrer com o racismo

Desse mundo de cinismo

Porcamente enquadrado.

E aí ninguém mais pensa

Que a mistura o clareou

Se o cabelo não é liso

Se o nariz não afilou

É tratado como preto

Com racismo obsoleto

Que jamais se acabou.

O problema, realmente

Na mistura não consiste

Mas é na mentalidade

Que o racismo ainda existe

Julgando que é um problema

E fazendo de um dilema

Essa cor que a pele exibe.

O problema é a tentativa

De impor branqueação

Destruindo a identidade

Para o povo da nação

Impedindo de enxergar

O racismo a clarear

Nessa padronização.

No passado se queria

O final da negritude

Que incomodava o branco

Por ter forte atitude

Pois a preta identidade

É dotada de verdade

De beleza e plenitude.

Os racistas do passado

Inda vivem no presente

Têm um discurso furado

Ensinado para a gente

De que negro não existe

E no termo vil insiste

Com postura insolente.

Vão chamando de mulato

Ou de pardo e bronzeado

Dizem que é cor de jambo

Tom moreno e amarronzado

Chama até de chocolate

Nesse torpe disparate

De racismo nomeado.

Essa palavra “mulata”

Ela não me representa

Não sou cria de jumento

Nem de burro sou rebenta

Eu sou filha duma gente

Corajosa e imponente

Com história opulenta.

É por isso que eu exijo

O respeito que é devido

Que aceite a minha fala

E não venha de atrevido

Venha enfim compreender

Bem disposto para ver

O que tenho promovido.

Não me chame de mulata

Eu sou negra orgulhosa

Não me chame de morena

Eu sou preta vigorosa

Tenho garra pra lutar

Para a todos ensinar

Sempre bem esperançosa.

Essa minha identidade

Possui força exemplar

É firmada na coragem

De unir e conquistar

Resgatei minha raiz

E agora eu sou feliz

Pelo que posso contar.

Fragmento do cordel de Jarid Arraes na Revista Fórum: www.jaridarraes.com/cordel


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