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Por Coluna esquinas -

Meia furada


Alguns acontecimentos na vida marcam lugar na memória de longo prazo e não ficamos imunes às lembranças do que aconteceu. Não é? Pode ser aquela fotografia com cabelo horrível ou roupa de outra época, uma música que embala nossos amores do passado ou uma casa que cheira à casa de vó, ou ainda um perfume que nos lembra alguma pessoa querida que já partiu.

Lembra do teu primeiro emprego? Primeiro dia? Primeiro salário? Lembra do primeiro amor? Ou dos desafios que você, assim como um grupo de amigxs tiveram? Ou quando comprou o primeiro presente e pagou com seu próprio salário e entregou para alguém que amava? Ou pagou a conta do restaurante, desafiou a hierarquia, cumpriu uma meta maluca, cedeu à preguiça. No meu caso, um dos grandes eventos que guardo na memória foi algo simples, mas não menos emblemático. A verdade é que nunca mais fui o mesmo depois que flagrei um professor com a meia furada. Mudei ali.

Estava eu em uma aula enfadonha de Física, daquelas que precisamos prestar muita atenção para não perder o fio da meada, e meu pensamento foi passear, como sempre acontece nessas situações. Meus olhos procuravam algo interessante e não é que encontraram? Ele era um professor inatingível, arrogante, esnobe e insuportável, e com um buraco na meia cinza contrastando com o sapato lustrado.

Mas o fato é que aquela cena me tirou da zona de conforto no alto de meus 14 anos. Até ali, morador de uma pequenina cidade da periferia do Brasil, considerava eu que para sair de casa precisávamos estar limpinhos, impecáveis, imaculados. A meia furada do professor Leônidas, com seu furo pequenino que nascia no calcanhar e tinha uma extensão que ia diretamente ao tornozelo, desmontou ali meus medos do professor ranzinza e, principalmente, me deu a certeza de que eu precisava colocar em xeque os meus conceitos.

Mas o assunto da crônica de hoje não pode ser apenas a meia furada do professor Leônidas, não é?  Esse texto é curto demais para o tamanho do problema: A indústria têxtil e do vestuário é a segunda maior poluente, perdendo apenas para o petróleo. E eu me preocupando com a meia furada do velho mestre?

Logo depois de meu impacto com aquela meia furada, fui mudando hábitos sobre reaproveitamento de roupas ou seu uso por anos. E cá estou contando a vocês que não passo frio e tenho roupas para doar a quem precise mais do que eu. Adotar hábitos sustentáveis, conhecer as roupas, produtos de higiene pessoal e acessórios que utiliza, de onde vem a matéria-prima, se a empresa respeita os direitos dos trabalhadores, comprar de brechó, customizar, reaproveitar, não faz mal algum.

E sim, tenho meias furadas costuradas ao modo antigo. Coloco um ovo dentro, estico o tecido e vou cerzindo até ficar pronta para o uso. 

Não dá para fazer isso com os conceitos. Quando não servem mais, jogamos fora. Afinal, conceito ultrapassado não faz mal ao meio ambiente, mas atrapalha a vida da gente que só! A vida é mais complexa do que uma simples meia furada.


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